lundi 18 février 2013

Crônica da Urda


Bento ou Benedito?
                                  


                            (Como as coisas se passaram quando o papa foi eleito. Reencaminhado por pertinência do momento. Urda)

                                   Quando eu era criança, eu via que o Brasil era como era. Depois cresci e li Gilberto Freire e seu entusiasmo, e passei a crer que vivíamos, mesmo, numa democracia étnica. Daí cresci mais e vivi mais, e fui vendo que a coisa não era bem assim, e veio Darcy Ribeiro e outros me acenando com o outro lado da moeda, mas mesmo assim eu acho que não estava nada preparada para o ato explícito de racismo institucionalizado ao qual assisti nesta semana.
                                   Vejamos: eu liguei a televisão bem na horinha em que começou a sair uma primeira fumacinha lá na chaminé da capela Sistina, ainda fumaça tão tênue que não se definia a cor – e logo a fumaça ficou branca!  Era hora do Jornal “Hoje”, e a expressão “Habemus Papa” passou a estar na boca de todos, seguida da grande curiosidade: “Quem é, quem é?”. Então, nos trinta ou quarenta minutos seguintes as coisas se definiram: havia sido escolhido o alemão Joseph Ratzinger, e isto é assunto para outra discussão, e que discussão! Mas o que nos interessa, neste momento, é que quando se soube quem era o Papa, ele já havia escolhido seu nome de Papa, e o Jornal Hoje já estava devidamente calçado com a presença de um teólogo da USP, que clareava o que não se sabia.  Soube-se, então, que o nome que o Papa escolhera significava “Abençoado”, e o teólogo foi taxativo: tanto em italiano, quanto em português, “Abençoado” significava “Benedito”, ou “Bento”. Então não havia dúvidas: Habemus Papa Benedito, XVI, para se ser mais exato, pois outros 15 Beneditos já houvera.
                                   Por uns 30 minutos, no Brasil, tivemos o Papa Benedito XVI. O Jornal Hoje se estendia sem pressa, e o teólogo da USP explicava tudo que se queria saber, tintim-por-tintim, quando de repente, uma meia hora depois, o nome do Papa passou para Bento. Eu cá estranhei: aquilo tinha cheiro de racismo! Lembrei-me de São Benedito, santo preto muito popular no Brasil, padroeiro das gentes negras – será que uma coisa não estava tendo a ver com a outra? Passei uma mensagem para uma amiga antropóloga na Alemanha, grande conhecedora de Brasil, contando o que acontecia, e ela me respondeu: “Aqui ele é Benedikt. Eu acho que é racismo, sim!” Expus o caso para minha faxineira, que passava roupa e espiava a televisão ao mesmo tempo: “O que tu achas?” – Ela foi taxativa: “Bento fica melhor, tu não estás vendo? Benedito é nome di nego!” . Eram opiniões de áreas extremas: ia desde uma doutora em Antropologia até minha pouco alfabelizada faxineira, passando pela humilde escriba que sou. Telefonei para minha mãe e expus o caso – ela achava melhor não mexer com tais coisas. Então, só restava esperar. E esperei.
                                   Nas horas seguintes, nos dias seguintes, fui vendo que a exclusividade do nome Bento pertencia ao Brasil (e agora descobri que a Portugal também). Na língua espanhola o papa é Benedicto; na língua alemã é Benedikt – na verdade, não pesquisei em muitos países, pois já conheço um bocado este Brasil onde “Benedito é nome di nego”, e posso entender este racismo que assola a minha gente, sob a capa de uma democracia étnica. E Portugal, bem ... se um dia fomos no embalo de Portugal, penso que hoje Portugal muito nos copia – basta ver o gosto dos portugueses pelas nossas novelas!
                                   Taí o que queria falar. Se “Abençoado” , no Brasil, quer dizer Bento, e não Benedito, acho que São Benedito e nossos irmãos negros  têm muito a ver com a coisa. Se na nossa língua não se aceita ter um Papa Benedito, eu acho que tem a ver com o mais descarado racismo, sim. Gilberto Freire que me perdoe, mas a tal democracia étnica está fazendo água.

                                   Blumenau, 23 de abril de 2005.


                                               Urda Alice Klueger
                                               Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR 

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