jeudi 17 janvier 2013

Crônica da Urda


AR POLAR

                                    (Para Eduardo Venera dos Santos Filho)

                        Não há como, num dia como este, em que a manhã já vem pejada de sensações indescritíveis das coisas mais intensas já vividas desde as mais antigas lembranças, decerto tangidas pelos mistérios deste clima de outono em pleno começo de janeiro, não há como, repito, não sentar e escrever a respeito.
                        A massa de ar seco e adstringente decerto se desprendeu lá do Polo Sul e tomou o rumo do verão inadvertidamente, e nesse seu rolar pelo entorno do planeta foi acendendo lembranças e sensações que estavam como que esquecidas, dormitando nas pessoas e nas coisas, e imagino quantos frutos, hoje, estão pensando que é tempo de começar a amadurecer, e quantas flores pensam que é o momento de formar as sementes que garantirão sua genética, e quantas aves não sentirão aquele primeiro tremor que as fará pensar que começa a chegar o tempo em que devem se preparar para a migração – as forças das estações são terrivelmente fortes, e esse prelúdio inesperado de outono traz no seu bojo, também, para humanos como eu, este caleidoscópio intenso da vida, e me deixa com esta vontade de chorar por toda a torrente de emoções recordadas inesperadamente, as maiores, as mais intensas.
                        É um dia para ver e sentir a plenitude da vida, não apenas a que já passou, mas decerto a que ainda virá, dia de girândola de ânsias, alegrias e sofrimentos, e fica até difícil escolher algum desses momentos ou imagens que perpassam por meu corpo e meu espírito e que me enchem de perturbação e de profundidade, como fica uma fruta cheia de sumo no auge do verão.
                        Penso: há quarenta anos atrás todos os dias eram assim, e então uma flecha  de dor atravessa o tempo e me atinge com todo o seu mistério e sua magia, e aqueles anos de 1972 e 1973 voltam com toda a força e me derreiam. Sempre falo que o amor é uma coisa que jamais passa e há pessoas que não me creem quando tal falo. O amor pode até ficar quieto, dormitando indefinidamente como as sementes dormem no inverno, mas como as sementes que gerarão outras e outras, ele sempre irá se reproduzir e somar – jamais morre. Se o amor morrer é porque amor não era, mas uma semente fanada, que não teria a graça da reprodução. E neste dia de vento terral fora de tempo, aquele tempo que parecia perdido, aquele tempo que já faz quarenta anos ressurge e me toma sem pedir licença e perdão, e lembro dos cheiros, das ternuras, de músicas do Roberto, de Caetano cantando “Como dois e dois” e Chico falando do seu ”Menino Jesus”, e há um gravador a pilha tocando fitas vídeo cassetes no cheiro bom de um fusca verdinho claro e a sombra de eucaliptos lá no morro da velha caixa d’água, e penso: por que sobrevivi quarenta anos desde então? Por que hoje penso viver até os 105, como Dona Canô e o Niemeyer? Há sentido em viver tanto depois que o sentido da vida parte?
                        Há quarenta anos todos os dias tinham a intensidade deste dia de hoje, e viver era tão embriagante que eu não acreditaria se me dissessem que toda a vida não seria assim, que haveria a profunda ruptura que houve e eu sobreviveria.      
                        Então hoje amanhece este dia que deve estar mexendo com todas as formas de vida, as materiais e as imateriais, e o mundo está tão mágico que eu posso entender algumas coisas, como a de que há diversos sentidos para se viver, e quando são sentidos de amor, todos se somam. Então deve ser bom viver até os 105 – sempre haverá novos dias como este de hoje onde existirão as revivências das melhores coisas que se viveu, e ao redor de mim poderão flutuar no ar as velhas músicas do Roberto junto com aquela que fala ”... Comandante Che Guevara...” e as cantigas religiosas que a minha mãe cantava em manhãs assim e as imagens da Venezuela na data de ontem e um poema de Mário Benedetti que diz “... en la calle, codo a codo...”.
                        Esta massa de ar polar repercute em mim como o sino de uma catedral, e agradeço ao universo por poder ser assim.

Blumenau, 11 de janeiro de 2013.

Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR

ShareThis

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...