jeudi 10 janvier 2013

Crônica da Urda



TEMPOS CONTURBADOS 2 –
                Neide, Poli e a sobrevivência

(Texto do livro “Meu cachorro Atahualpa”, publicado em 2010)

            Por sorte, eu tinha dinheiro para comprar nossa comida, mas nem sempre tal coisa era fácil. Eu almoçava num pequeno restaurante próximo, enquanto Atahualpa ficava trancado por detrás da porta de vidro, espiando para a rua. Voltava o mais rápido que podia, quase sempre trazendo deliciosas sobras do restaurante, principalmente ossos de galinha, que ele adorava. Comprei uma alicate para quebrar fora as partes perigosas e pontudas dos ossos, tentando evitar algum acidente, e meu bichinho ficava no jardinzinho fronteiriço à nossa porta, destruindo criteriosamente cada ossinho, e depois, no calor da tarde, deitava-se no chão e dormia prazerosamente, enquanto eu me mantinha no computador.
                                   Havia comprado uma lata de chocolate solúvel, outra de leite instantâneo e uma de farinha láctea, e essas coisas, mais alguma fruta, costumavam ser meu café da manhã e meu jantar. Acostumado a suas papinhas de leite com bolo, Atahualpa logo se acostumou a comer papinhas de leite com farinha láctea, mas aquilo não era suficiente para ele. Havia a ração para cachorros, claro, coisa que muito raramente era do agrado dele, mas ele precisava de mais comida. Acabei comprando um fogareiro de camping, e todos os dias ia ao supermercado próximo e comprava alguma carne ou fígado, e também ossos, quando havia ossos, e numa panelinha, cozinhava tais coisas para ele.
                                   Não era possível comprar um bolo inteiro, como antes, pois não tínhamos geladeira, e nem muita carne ou qualquer outra comida, pelo mesmo motivo, e então se comia bem nos dias úteis – o problema era nos finais de semana.  Era então que a maioria dos restaurantes fechava e eu ficava sem as sobras: tentei, vez ou outra, levar meu bichinho até um restaurante e comer do lado de fora, mas os donos de restaurantes tinham verdadeiros chiliques ao ver um cachorrinho por perto. Ia, então, a esses lugares que servem comida nos carros e pedia um petisco de alcatra ou algo assim, com Atahualpa dentro do carro, mas ele nunca gostou de frituras. Também o supermercado fechava, aos domingos, e não havia como obter carne ou osso – e não se podia comprar para o dia seguinte, por causa do intenso calor e da falta de geladeira.
                                   Quando eu olhava para a carinha de fome do meu bichinho, o desespero dele nos olhinhos,  ficava totalmente arrasada. Houve um domingo à tarde, mesmo, quando Atahualpa estava com tanta fome e eu não conseguia alimentá-lo, que chorei tanto, mas tanto, que escrevendo isto, agora, volto a chorar.
                                   E havia os outros cachorros, também. Com mais de 5.000 pessoas nos abrigos públicos, fora as que se abrigavam em casas de amigos, de parentes ou nos mais inesperados lugares (na confeitaria próxima de onde estávamos, por algum tempo os padeiros moraram num quartinho dos fundos) e fora as que haviam morrido, era de se imaginar que houvesse muitos cachorros sem casa. Quando as casas escorregaram e caíram dos morros e seus donos ou morreram ou foram para abrigos, os animais que sobreviveram ficaram abandonados, e eram muitos deles os que vagavam sem rumo pelas ruas, e alguns eram tão meigos, tão bonzinhos, que ficavam como que pedindo que alguém os acudisse.
                                   Foi nessa altura que eu conheci a Neide com sua cachorrinha Poli, e se tem alguém de coração bom neste mundo, esse alguém é a Neide.  Minha nova amiga como que caiu do céu, e ela andava numa grande cruzada de salvamento dos cachorrinhos sem dono.  Atahualpa de imediato se apaixonou pela Neide e pela Poli – como alguém não se apaixonar logo pela Neide? Pois tinha gente que olhava através da Neide e não a via e nem via a sua bondade, tanta maldade tinha no coração, e assim como a Neide (e outras pessoas) estavam tentando salvar os cachorrinhos perdidos, havia aqueles malvadões que ficavam tentando matar os cachorrinhos, principalmente de sede, furando os recipientes com água que a Neide e outros escondiam nos cantinhos do bairro.
                                   No começo desse nosso tempo no depósito de livros, incontáveis caminhões de doações de todas as partes do Brasil chegavam a Blumenau trazendo alimentos, água, roupas, brinquedos e tudo o mais que se possa imaginar. Quando conheci a Neide ela estava ajudando a separar tais donativos na igreja próxima, que fica à Rua Guatemala, e lá havia alguém, sei que uma mulher com jeitos de madame, que andava ofendidíssima porque havia gente ajudando a salvar os cachorrinhos perdidos. Tal mulher vituperiava contra ”essa gente ordinária que fica sujando nosso bairro com potes de comida e água para esses animais sarnentos, que deveriam era morrer logo”. Nas minhas contas, sarnenta era ela, madame com a alma cheia de sarna, sem nenhuma piedade pela dor e pela desgraça dos outros, sequer por animaizinhos perdidos.
                                   Eu passei a ajudar a Neide, e houve momentos em que cheguei a ter três cachorros acolhidos no nosso abrigo, enquanto eu procurava algum novo lar para eles.  Uma cachorrona preta, mesmo, adotou a mim e a Atahualpa como sua nova família, a ponto de não nos largar em nenhum momento do dia ou da noite. Participava dos nossos passeios, dormia com Atahualpa debaixo da mesa do computador, enquanto eu trabalhava, e tinha um terrível pavor de trovoadas. Nas trovoadas das tardes ela entrava em tal angústia e desespero que eu tinha que permitir que ela se escondesse atrás da mais escondida das caixas de livros, no mais escuro canto do depósito, tamanho era o seu pavor. Acabei achando uma casa para ela no bairro Nova Rússia, onde ela passou a se chamar Cristal. Meses depois, certa tarde, ela me encontrou no bairro Nova Rússia – e me reconheceu imediatamente. Quase me matou de tantos pulos, tantas lambidas e tanto carinho!
                                   Aos poucos, fui criando coragem de ir, de novo, até o apartamento onde morara, antes, com Atahualpa. Quer dizer, eu ia com ele, mas ele se negava a entrar no apartamento, o que me doía profundamente e me fazia sair dali o mais depressa possível.  Era como se ele sentisse, pressentisse que aquela era uma área de risco, e soubesse que não deveria ficar lá, o que me fazia lembrar da grande tsunami do sul da Ásia, poucos anos antes, quando, nos dias anteriores à tragédia os animais já demonstravam seu desassossego e queriam ir para lugares mais altos. Então eu punha um monte de roupa na máquina de lavar roupa e a ligava, e saía o mais rápido possível de lá. No outro dia voltava e pendurava aquela roupa, mas Atahualpa continuava se negando a entrar no apartamento. Uma vez ou outra eu criava coragem para tomar um banho de chuveiro, mas Atahualpa continuava parado na porta.  Então voltávamos para o nosso refúgio no depósito de livros, e eu chorava amargamente, pois não sabia o que fazer nem como melhorar ao menos a alimentação do meu bichinho.
                                   E enquanto estávamos em tal situação, continuávamos dando grandes caminhadas pela Ponta Aguda e pelo centro de Blumenau, e tentando ajudar aos cachorros perdidos com ração, água e algum carinho, e encontrávamos a Neide nos finais da tarde e íamos até a Prainha para que os cachorros pudessem correr – que teria sido da minha vida, naqueles tempos, sem o Atahualpa? Tudo estava tão difícil, tão difícil, que até agora, quase dois anos depois, ainda é tão difícil de lembrar...


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