lundi 7 janvier 2013

A CULTURA DA POLÍTICA CULTURAL


Razão em Coma

Pobres bibliotecas vazias
sem títulos e sem Borges,
O tempo, indiferente
ao jogo dos relógios,
não é mais dos livros.
O saber é um desconforto
de uma civilização
que vive ao redor do imediato
e humilha a memória.


(do livro MALABARISMO DAS PEDRAS  Almandrade – poemas,  edições MAC - Feira de Santana -Ba. 2010)
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Entre a falta de reflexão, de crítica e o medo que passou a fazer parte da vida do brasileiro, a constatação de um desenvolvimento determinado pelas variantes econômicas, longe de um projeto orientado por uma política cultural. O crescimento econômico, sem levar em conta as vertentes culturais, não é suficiente para promover  a melhoria das condições materiais de sobrevivência. Não é a meta de mais recursos para a cultura que está em jogo, mas a participação da cultura na opção do modelo de desenvolvimento. Medidas de aquecimento da economia são tomadas sem um relatório do impacto sócio-cultural. A cultura é sempre o acessório. A quantidade, e não a qualidade, emprego e renda são levados em conta nos diferentes projetos políticos que têm o mesmo objetivo garantir o consumo e o espetáculo da vida moderna. A cultura não é nem a toalha da mesa onde se negocia sobre os  investimentos e o destino do País, do Estado e da cidade.

Por outro lado, o que é refletido e produzido no que diz respeito ao sentido da cultura, no meio de arte, é muito pouco e chega a ser mesquinho para uma política mais ampla, as discussões se concentram em torno de reivindicações particulares. Estamos limitados à escala individual de nossas corporações, sem capacidade para pensarmos nas necessidade sociais e culturais globais, que vão além de nossas atividades profissionais. Precisamos de algo mais que uma bolsa de arte, uma salão de arte, editais que pouco contribuem para a formação do artista e do público e a proteção dos bens móveis e imóveis, materiais e os chamados imateriais, enfim; uma perspectiva menos assistencialista por parte do Estado.

O Estado tem que admitir que tem responsabilidade na área cultural com ações efetivas. Criar  uma equipe especializada com reflexão sólida e capacidade de formular, articular e por em prática iniciativas que não se restrinjam somente a repasse de recursos através de editais, nem sempre acessíveis aos melhores projetos. Com esse programa de atendimento a demandas de  proponentes, o Estado acaba   encobrindo problemas, disfarçando e transferindo responsabilidades para  produtores independentes de eventos, muitas vezes com outros interesses.

A instituição cultural pública não é um simples lugar de apresentação de eventos e espetáculos, mas principalmente o lugar de estimular e provocar o pensamento. Um museu de arte, por exemplo, precisa de uma dotação orçamentária para garantir uma programação e a formação de uma coleção, que devem ser orientadas por um corpo curatorial, livre  de interesses pessoais e compromissos outros que comprometam a política e a importância dos bens culturais e o papel formativo da instituição.

Além desse modelo de distribuição de recursos em nome da transparência, com o outro da renúncia fiscal para financiar a cultura, o Estado banca mediatizado pela iniciativa privada o evento cultural que  veicula  as marcas das empresas “patrocinadoras”.  Museus e outras instituições  passam a ser casas de hospedaria de eventos, exposições, espetáculos e entretenimentos e deixam de exercer suas funções de promover enunciados críticos. A programação e a construção de seu acervo fica à mercê de apoio pontual. O que define a pauta é a garantia de patrocínio e não a qualidade do que deve ser mostrado, comprometendo a liberdade, a sustentabilidade e a função da instituição.

Sem falar nos centros culturais privados criados às custas da isenção  fiscal que concorrem de forma privilegiada com instituições públicas de peso histórico. Com mais recursos, eles fazem uma política paralela sem maiores responsabilidades, além de associar suas marcas em produtos culturais que tenham visibilidade na mídia, com algumas raras exceções.



Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto, integrante do Conselho de Cultura do Estado da Bahia)

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