mercredi 13 juin 2012

Atitudes críticas e pro-ativas face à Rio+20


Creio que se impõem três atitudes que precisamos desenvolver diante da Rio+20.

A primeira é conscientizar os tomadores de decisões e toda a humanidade dos riscos a que estão submetidos o sistema-Terra, o sistema-vida e o sistema-civilização. As guerras atuais, o medo do terrorismo e a crise econômico-financeira no coração dos países centrais estão nos fazendo esquecer a urgência da crise ecológica generalizada. Os seres humanos e o mundo natural estão numa perigosa rota de colisão. De nada vale garantir um desenvolvimento sustentável e verde se não garantirmos primeiramente a sustentabilidade do planeta vivo e de nossa civilização. Esta conscientização deve ser feita em todos os níveis, da escola primária à universidade, da família à fábrica, do campo à cidade.

A segunda atitude tem a ver com um deslocamento e uma implicação que importa operar. Urge deslocar a discussão do tema do desenvolvimento para o tema da sustentabilidade. Se ficarmos no desenvolvimento nos enredamos nas malhas de sua lógica que é crescer mais e mais para oferecer mais e mais produtos de consumo para o enriquecimento de poucos à custa da super-exploração da natureza e da marginalização da maioria da humanidade. A pesquisa séria do Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica (ETH) de 2011 revelou a tremenda concentração de riqueza e de poder em pouquíssimas mãos: são 737 corporações que controlam 80% do sistema corporativo mundial, sendo que um núcleo duro de 147 controla 40% de todas as corporações, a maioria financeiras. Junto com este poder econômico segue o poder político (influencia os rumos de um país) e o poder ideológico (impõe pensamentos e comportamentos). A pegada ecológica da Terra revelou que esta já ultrapassou em 30% seus limites físicos. Forçá-los é obrigá-la a defender-se. E o faz com tsunamis, enchentes, secas, eventos extremos, terremotos e o aquecimento global. E também com as crises econômico-financeiras que se incluem no sistema-Terra viva. O tipo de desenvolvimento vigente é insustentável. Vãos são os adjetivos que lhe acrescentemos: humano, verde, responsável e outros. Levá-lo avante a qualquer custo, como ainda propõe o texto-base da ONU, nos aproxima do abismo sem retorno.

Deslocar-se para o tema da sustentabilidade significa criar mecanismos e iniciativas que garantam a vitalidade da Terra, a continuidade da vida, o atendimento das necessidades humanas das presentes e futuras gerações, de toda a comunidade de vida e a garantia de que podemos preservar nossa civilização. Essa compreensão de sustentabilidade é mais vasta do que aquela do desenvolvimento simples e duro.

Para alcançar tal propósito, se faz mister um novo olhar sobre a Terra, um re-encantamento do mundo e um novo sonho. Isto significa inaugurar um novo paradigma. Se antes, o paradigma era de conquista e de expansão, agora, devido aos altos riscos que corremos, deverá ser de cuidado e de responsabilidade global. Precisamos incorporar a visão da Carta da Terra que propõe tais atitudes no quadro de uma visão holística do universo e da Terra. Ela vê o nosso planeta como vivo, com uma comunidade de vida única. É fruto de um vasto processo de evolução que já dura 13,7 bilhões de anos. O ser humano comparece como expressão avançada de sua complexidade e interiorização. Este tem a missão de cuidar e de preservar a sustentabilidade da natureza e de seus seres.

Esta visão só será efetiva se for mais que um deslocamento de visões. A ciência não produz sabedoria mas só informações. Quer dizer, não oferece uma visão global e integradora da realidade interior e exterior (sabedoria) que motive para a transformação. Por isso deve vir acompanhada da implicação de uma emoção fundamental. Importa fazer uma leitura emocional dos dados científicos, porque é a emoção, a paixão, a razão sensível e cordial que nos moverão a ação. Não basta tomar conhecimento. Precisamos nos conscientizar, no sentido de Paulo Freire, nos munir de indignação e de compaixão e pôr mãos à obra.

Portanto, junto com a razão intelectual, indispensável, que predominou por séculos, cabe resgatar a razão sensível e emocional que fora colocada à margem. Ela é o nicho da ética e dos valores. Faz-nos sentir a dor da Terra, a paixão dos pobres e o apelo da consciência para superarmos estas situações com uma outra forma de produzir, de distribuir e de consumir.

A terceira atitude é de trabalho crítico e criativo dentro do sistema. Já se disse: os velhos deuses (a conquista e dominação) não acabam de morrer e os novos (cuidado e responsabilidade) não acabam de nascer. Somos obrigados a viver num entre-tempo: com um pé dentro do velho sistema, trabalhar e ganhar nossa vida no âmbito das possibilidades que nos são oferecidas; e com outro pé dentro do novo que está despontando por todos os lados e que assumimos como nosso. Há muitas iniciativas que podem ser implementadas e que apontam para o novo.

Fundamentalmente importa recompor o contrato natural. A Terra é nossa grande Mãe, como o aprovou a ONU a 22 de abril de 2009. Ela nos dá tudo o que precisamos para viver. A contrapartida de nossa parte seria o agradecimento na forma de cuidado, veneração e respeito. Hoje precisamos reaprender a respeitar o todo da Terra, os ecossistemas e cada ser da natureza, pois possuem valor intrínseco independentemente do uso que fizermos dele como o enfatiza a Carta da Terra. Essa atitude é quase inexistente nas práticas produtivas e nos comportamentos humanos. Mas podemos ressuscitar esse sentido de amor, de autolimitação de nossa voracidade e de respeito a tudo o que existe e vive. Ele diminuiria a agressão à natureza e faria de nossas atitudes mais eco-amigáveis.

Defender a dignidade e os direitos da Terra, os direitos da natureza, dos animais, da flora e da fauna, pois todos formamos a grande comunidade terrenal.

Apoiar o movimento internacional por um pacto social mundial ao redor daquilo que pode unir a todos, pois todos dependem dele: a água, com um bem comum natural, vital e insubstituível. Criar uma cultura da água, não desperdiçá-la (só 0,7% dela é acessível ao uso humano) e torná-la um direito inalienável para todos os seres humanos e para a comunidade de vida.

Reforçar a agroecologia, a agricultura familiar, a permacultura, as ecovilas, a micro e pequena empresa de alimentos, livres de pesticidas e de transgênicos.

Buscar de forma crescente energias alternativas às fósseis, como a hidrelétrica, a eólica, a solar, a de biomassa e outras.

Insistir no reconhecimento dos bens comuns da Terra e da humanidade. Entre esses se contam o ar, a atmosfera, a água, os rios, os oceanos os lagos, os aquíferos, a biodiversidade, as sementes, os parques naturais, as muitas línguas, as paisagens, a memória, o conhecimento, a internet, as informações genéticas e outros.

O mais importante de tudo, no entanto, é formar uma coalizão de forças com o maior número possível de grupos, movimentos, igrejas e instituições ao redor de valores e princípios coletivamente partilhados, como os expressos na Carta da Terra, nas Metas do Milênio, na Declaração dos Direitos da Mãe Terra e no ideal do Bem Viver das culturas originárias das Américas.

Por fim, precisamos estar conscientes de que o tempo da abundância material acabou, feita à custa do desrespeito dos limites do planeta e na falta de solidariedade e de piedade para com as vítimas de um tipo de desenvolvimento predatório, individualista e hostil à vida. O crescimento econômico não pode ser um fim em si mesmo. Está a serviço do pleno desenvolvimento do ser humano, de suas potencialidades intelectuais, morais e espirituais. A economia verde inclusiva, a proposta brasileira para a Rio+20, não muda a natureza do desenvolvimento vigente porque não questiona a relação para com a natureza, o modo de produção, o nível de consumo dos cidadãos e as grandes desigualdades sociais. Um crescimento ilimitado não é suportado por um planeta limitado. Temos que mudar de rota, de mente e de coração. Caso contrário, o destino dos dinossauros poderá ser o nosso destino.

Finalmente, meu sentimento do mundo me diz que não estamos diante de uma tragédia anunciada. Mas diante de uma gravíssima e generalizada crise de civilização. Contém muitos riscos, mas, se quisermos, serão evitáveis. Pode significar a dor de parto de um novo paradigma e o sacrifício a ser pago para um salto de qualidade rumo a uma civilização mais reverente da Terra, mais respeitosa da vida, mais amiga dos seres humanos e mais irmanada com todos os demais seres da natureza.



Teólogo, filósofo, da Comissão Iniciativa da Carta da Terra, autor de Proteger a Terra e cuidar da vida: como evitar o fim do mundo, Record 2011.

Amado Jorge


Emanuel Medeiros Vieira


Em 2012, comemora-se o centenário de nascimento do escritor Jorge Amado
(1912-2001).
Muito já se falou sobre ele e sobre a data. Serei breve.
Quero reportar-me às tradições baianas, que são o alimento principal das narrativas
de Jorge.
Como observou Luna Almeida, o culto dos orixás, a descrição das festas, danças, vestimentas e saudações do candomblé estão presentes nos seus livros, desde o instante em que ele foi iniciado na religião.
Detinha de Xangô acredita que Jorge foi um dos grandes representantes do candomblé em todo o mundo.
“O homem morre, mas não desaparece completamente: ele é lembrado por suas obras edificantes. Foi ocaso de Jorge Amado”, afirmou.
O escritor Jorge Beniste acredita que os livros de Jorge Amado, juntamente
com as obras do artista plástico Carybé e do fotógrafo Pierre Verger, foram
responsáveis por revelar a grandeza do candomblé e construir a história das religiões
no país.
“Sua contribuição foi riquíssima e de grande importância para a cultura da Bahia”, afirmou o escritor.
Alguns de seu romances (principalmente os da primeira fase), como “Terras do Sem
Fim”, serão sempre lembrados.
Muitos não sabem, mas o Brasil deve ao escritor o direito de liberdade religiosa.
Ele é o autor da lei (da liberdade religiosa) aprovada em 1945, quando foi eleito
o deputado federal mais votado no país, pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) – partido depois colocado na ilegalidade.
No seu livro de memórias “Navegação de Cabotagem”– que está sendo reeditado pela Companhia das Letras, escreve: “Publico esses rascunhos pensando que, talvez, quem
sabe, poderão dar ideia do como e do porquê. Trata-se, em verdade, da liquidação a
preço reduzido do saldo das miudezas de uma vida bem vivida. Não quero erguer
monumento nem posar para a história cavalgando a glória. Quero apenas contar algumas coisas, umas divertidas, outras melancólicas, iguais à vida. A vida, ai, quão breve navegação de
cabotagem”. (Emanuel Medeiros Vieira, na Bahia, terra  do Amado Jorge...)

Crônica da Urda


ARTE E CULTURA-Coisas que não podem ser matadas!
                                
                                               (EmAndahuaylillas/Peru)
                                                
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                                      (Excertos do livro "Viagem ao Umbigo do Mundo,publicado em2006)
                                       
                                               Aproximava-se o final do 2º Encontro Interamericano de Motociclismo de Cusco – o dia depois de Machupichu seria o último. Também seria o último que eu passaria integralmente com os meus amigos harleyros.
                                               Já cedo, de manhã, fui de novo com eles até Sachsayuhaman, mas dessa vez sem o silêncio e o respeito que Sachsayuhaman exige. Ia-se apenas para tirar fotografias. Tiramos muitas, cada delegação por sua vez; todas as delegações juntas. Uma dessas fotos, hoje, tenho num quadro, na parede do meu escritório, junto com o meu diploma de APHD[1][1], a me fazer lembrar da fantástica viagem que andei fazendo por esta América de meu Deus, como se diz na Bahia.
                                               Depois da solenidade das fotos, tivemos um dia altamente lúdico. Havia brindes para entregar, e seu Chico me botou na sua garupa com uma enorme caixa cheia de camisetas, que eu ficava lhe passando, e que ele fazia pontaria e jogava sempre que via uma criança pelas ruas de Cusco. Íamos em caravana, uma moto atrás da outra, e todos faziam coisas parecidas. Naquele dia estávamos sem o carro de apoio, e em certo momento vi o Nilo Lobo Solitário passar por nós também na garupa de alguém.. Era bonito ver o comprido cordão de motos negras desenrolando-se cerros abaixo, quando havia uma descida.
                                               Após a brincadeira da entrega dos brindes, saímos fora da cidade, 35 quilômetros até a cidadezinha de Andahaylillas, famosa por sua igreja construída no final do século XVI, forrada de muito ouro e um tanto quanto abandonada e descuidada, o que me fez pensar nos estragos causados por algum terremoto recente. Essa igreja é conhecida como a Capela Sistina da América, e há que se pagar um pequeno ingresso para poder se ver toda a sua grande magnificência. Entre outros atrativos, é impressionante a quantidade de afrescos que cobrem as paredes, e sobretudo o teto, com modelos geométricos e flores com folhas de ouro. O altar é alto, barroco, talhado em madeira de cedro e adornado, também, com folhas de ouro; no centro está a imagem de Nossa Senhora do Rosário. Seu tabernáculo é coberto de prata, e mais abaixo tem uma área de espelhos que servem para refletir a luz das velas e a luz exterior, melhorando a luminosidade interior.[2][2] Fico imaginando a esmagadora impressão que tal construção artística deve ter provocado nos sobreviventes dos Filhos do Sol, que, desesperançados e vencidos, eram obrigados a assumir a fé católica como única forma de não serem destruídos como a sua cultura estava a ser. (Não imaginavam os espanhóis conquistadores que, cinco séculos depois, está ainda bem viva a antiga cultura que pensavam ter destruído.)
                                        Também há famosa feira de artesanato ao longo de comprida praça logo à frente da igreja, e por todos os lados há muitos europeus que preferem um turismo menos urbano.
                                               Andahuaylillas nos aguardava com pompas. Na verdade, déramos sorte: chegáramos ali no dia da festa da padroeira. Mal chegamos, e fomos brindados com impressionante balé colorido no pátio fronteiriço à igreja, balé de muita gente dançando em coloridíssimos trajes bordados e inspirados em coisas da cultura antiga daquela região. Um impressionante Demônio de língua de fora dava a tônica ao balé, e, curiosíssima, fiquei a perguntar aos espectadores peruanos os significados daquela dança e daqueles trajes. Foi daí que soube que o sujeito com a língua de fora era o Demônio – que estava, nada mais nada menos, esperando para agarrar os personagens que dançavam no centro, para levá-los para o inferno. E quem eram os personagens que dançavam no centro? Não podia dar outra: tratava-se dos espanhóis invasores! Afinal, quem mais merecia ir para o inferno na temática dos descendentes dos Filhos do Sol? E ao redor dos espanhóis havia muitos outros personagens que dançavam imitando grandes risadas, escarnecendo do pessoal do centro do grupo, que iria para o inferno! Claro que aqueles eram os representantes dos povos originários da América. Ah! Como a Arte pode dar formato às nossas aspirações e às nossas revoltas! Talvez muita gente que estivesse ali naquela praça olhasse aquele balé apenas pelo colorido e pelo seu impressionante Demônio de língua de fora – mas da sua forma os bailarinos estavam dançando toda a sua revolta contra o sistema que só faltara lhes roubar a alma, bem no nariz de todo o mundo, botando para fora toda a revolta que tinham, e os turistas desavisados fotografavam aquela revolta e a levavam para o mundo, sem se dar conta que ali estava uma guerra que terminaria no inferno! Bendita Arte, capaz de expressões impossíveis em outras àreas, tantas vezes! E essa gente, com toda a sua criatividade, foi chamada de “selvagem” pelo invasor europeus que veio para destruir o seu mundo!      



[1][1] APHD – Amiga dos Proprietários de Harley-Davidson (Nota da autora)
[2][2] http://www.cusco-peru.org/cusco-peru/alrededores-cusco-andahuaylillas.shtml, consultado em 20.06.2006. Também os agradecimentos à PHD Ani Vargas, de Lima, Peru, que contribuiu com essa pesquisa. 

CONVITE DA ALEJURN


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