mardi 12 juin 2012

Minha fachada predileta


Convite da Urda


Economia verde versus Economia solidária


Leonardo Boff
Teólogo/Filósofo
                                     
         
O Documento Zero da ONU para a Rio+20 é ainda refém do velho paradigma da dominação da natureza para extrair dela os maiores benefícios possíveis para os negócios e para o mercado. Através dele e nele o ser humano deve buscar os meios de sua vida e subsistência. A economia verde radicaliza esta tendência, pois como escreveu o diplomata e ecologista boliviano Pablo Solón “ela busca não apenas mercantilizar a madeira das florestas mas também sua capacidade de absorção de dióxido de carbono”. Tudo isso pode se transformar em bonos negociáveis  pelo mercado e pelos bancos. Destarte o texto se revela definitivamente  antropocêntrico como se tudo se destinasse ao uso exclusivo dos humanos e a Terra tivesse criado somente a eles e não a outros seres vivos que exigem também sustentabilidade das condições ecológicas para a sua permanência neste planeta.
         Resumidamente: “O futuro que queremos”, lema central do documento da ONU, não é outra coisa que o prolongamento do presente. Este  se apresenta ameaçador e nega um futuro de esperança. Num contexto destes, nãoavançar é retroceder e fechar as portas para o novo.
         Há outrossim um agravante: todo o texto gira ao redor da economia. Por mais que a pintemos de marron ou de verde, ela guarda sempre sua lógica interna que seformula nesta pergunta: quanto posso ganhar no tempo mais curto, com o investimento menor possível, mantendo forte a concorrência? Não sejamos ingênuos: o negócio da economia vigente é o negócio. Ela não propõe uma nova relação para com a natureza, sentindo-se parte dela e responsável por sua vitalidade e integridade. Antes, move-lhe uma guerra total, como denuncia o filósofo da ecologia Michel Serres. Nesta guerra nãopossuimos nenuma chance de vitória. Ela ignora nossos intentos. Segue seu curso mesmo sem a nossa presença. Tarefa da inteligência é decifrar o que ela nosquer dizer (pelos eventos extremos, pelos tsunamis etc), defender-nos de efeitos maléficos e colocar suas energias a nosso favor. Ela nos oferece informações mas não nos dita comportamentos. Estes devem se inventados por nós mesmos. Eles somente serão  bons caso estiverem  em conformidade com seus ritmos e ciclos.
         Como alternativa a esta economia de devastação, precisamos, se queremos ter futuro, opor-lhe outro paradigma de economia de preservação, conservação e sustentação de toda a vida. Precisamos produzir sim, mas a partir dos bens e serviços que a natureza nos oferece gratuitamente, respeitando o alcance e os limites de cada  bioregião, destribuindo com equidade os frutos alcançados, pensando nos direitos das gerações futuras e nos demais seres da comunidade de vida. Ela ganha corpo hoje através da economia biocentrada, solidária, agroecológica, familiar e orgânica. Nela cada comunidade busca garantir  sua soberania alimentar. Produz o que consome, articulando produtores e consumodres numa verdadeira democracia alimentar.
         A Rio 92 consagrou o conceito antropocêntrico e reducionista de desenvolvimento sustentável, elaborado pelo relatório  Brundland de 1987 da ONU. Ele se transformou num dogma professado pelos documentos oficiais, pelos Estados e empresas sem nunca ser submetido a uma crítica séria. Ele sequestrou a sustentabilidade só para  seu campo e assim distorceu as relações para com a natureza. Os desastres que causava nela, eram vistos como externalidades que não cabia considerar. Ocorre que estas se tornaram ameaçadoras, capazes de destruir as bases físico-químicas que sustentam a vida humana e grande parte da biosfera. Isso não é superado pela ecocomia verde. Ela configura uma armadilha dos países ricos, especialmente da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) que produziu o texto teórico do PNUMA Iniciativa da Economa Verde. Com isso, astutamente  descartam a discussão sobre a sustentabilidade, a injustiça social e ecológica, o aquecimento global, o modelo econômico falido e mudança de olhar sobre o planeta  que possa projetar um  real futuro para a Humanidade e para a Terra.
         Junto com a Rio+20 seria um ganho  resgatar também a Estocolmo+40. Nesta primeira conferência mundial da ONU de 5-15 de julho de1972 em Estocolmo na Suécia  sobre o Ambiente Humano, o foco central não era o desenvolvimento mas o cuidado e a responsabilidade coletiva por tudo o que nos cerca e que está em acelerado processo de degradação, afetando a todos e especialmente aos países pobres. Era uma perspectiva humanística e generosa. Ela se perdeu com a cartilha fechada do desenvolvimento sustentável e agora com a economia verde.
Leonardo Boff é autor de “Sustentabilidade: o que é e o que não é”, Vozes 2012.

A Cidade Destruída


As pessoas civilizadas reclamam muito da grande falta de educação que permeia o povo soteropolitano, ao presenciarmos tamanha falta de respeito aos seus semelhantes.
Essa questão tem que ser muito discutida e também trabalhada em nossas famílias, pois no bojo da ignorância fica muito difícil educar crianças e adolescentes vendo os próprios pais transgredindo leis e desrespeitando ao próximo.
Somente em um dia presenciamos incontáveis falta de respeito e de amor ao semelhante, quanto mais o respeito à natureza e aos animais.
Num posto de gasolina vimos um motorista “profissional” de táxi estacionar na saída, quando a pessoa apita para reclamar o homem faz um verdadeiro escândalo, retirando o veículo, de cara amarrada; quem trabalha no trânsito devia ser o mais tranqüilizador possível, mas o que vemos são pessoas despreparadas, motoqueiros disputando com “taxeiros” e motorista de ônibus; ninguém respeita sinalização, semáforo e tudo que possa atrapalhar a sua sanha de chegar primeiro a um determinado lugar.
As ruas da cidade são verdadeiras armadilhas, buracos para todos os lados, um viaduto que passou um mês sendo reformado, aparece cheio de imperfeições e com uma verdadeira “colcha de retalhos” de recapeamento asfáltico, o pior é que na saída desse mesmo viaduto, notamos muitas irregularidades e inclusive pontos abertos e estragados.
O sofrido povo de Salvador, pena com tamanha falta de preparo dos seus representantes, mas também eles fazes o próprio povo sofrer.
Não respeitam passarela em estradas, preferem serem atropelados a andar mais um pouquinho; não respeitam idosos, tampouco crianças, muitos xingam, gritam, urram não importa o horário, só percebemos o eco do desconforto.
As filas para entrar em transportes lá no terminal é o maior empurra-empurra, mas o pior quando as pessoas civilizadas pegam uma fila enorme para acessar o caixa eletrônico e aparece um homem com toda a sua arrogância e invade o terminal, retira o dinheiro e quando o povo reclama, o incauto ainda vocifera que todos são otários mesmo e otário tem que pegar fila.
A falta de respeito e de cidadania, vem  começando do sistema público onde pessoas com câncer e com traumatismo craniano são obrigadas a vagar de hospital em hospital procurando UTI, como se o doente pudesse escolher ou ter horário para piorar o que já não tem nem como piorar, só morrendo, é o que acontece...
A cidade de Salvador virou um amontoado de favelas, as pessoas se acotovelam na falta de educação e do respeito ao ser humano em todas as áreas e a grande quantidade de pessoas honestas e ordeiras se sente totalmente alienígenas à cidade da falta de oportunidades de tudo e em todas as esferas.


Marcelo de Oliveira Souza




Crônica da Urda


EDÍCULAS


                                   Fui uma leitora voraz desde quando entrei na escola e recebi meu primeiro livro de leitura, que devorei inteirinho no primeiro dia – considerando que fazia algo como uma semana  que a minha mãe me alfabetizara, fazer aquilo era uma coisa que estava além das expectativas dos adultos.
                                   Portanto, fui uma leitora voraz desde a alfabetização, e seria difícil, hoje, fazer a conta de quantos milhares de livros li, o que me deixou ciente de um bastante bom vocabulário de português. Surpreendi-me, faz poucos anos, ao descobrir que havia pessoas que não sabiam o que significavam palavras como “brumas”, ou “rés do chão”, ou “chávena”, por exemplo. Não sei bem o que senti ao fazer tais descobertas: se eu era uma felizarda por haver lido tanto, ou se tinha pena das pessoas que não tinham lido. Acho que senti mais ou menos uma média das duas coisas. Mas houve uma palavra que me escapou, e vou contar a respeito.
                                   Nos anos da minha infância, as pessoas moravam em casas, e lá no fundo das casas normalmente havia um rancho, que era onde se guardava a lenha cortada, se pendurava cachos de banana para amadurecer, onde as crianças brincavam em dias de chuva e que tinha centenas de outras utilidades. Dependendo da casa, era lá que ficava o banheiro e o tanque de lavar roupas. O rancho se chamava rancho se era construído separado da casa – quando tal construção polivalente era anexa a casa, o nome mudava para puxado. Mais tarde veio a televisão e a popularização da palavra “puxadinho”.
                                   Faz poucos dias que andei olhando um lugar na Internet onde se anunciavam casas para vender e/ou alugar. Era um lugar muito bem feito, onde apareciam muitas fotografias das citadas casas, além de descrições da mesma, mais ou menos assim: casa com tantos metros quadrados, com três quartos, dois banheiros, sala em dois ambientes, cozinha com despensa e... edícula! Puxa vida, deveria ser uma coisa muito fascinante uma edícula! Por algum motivo veio-me à cabeça essas mais ou menos sobrelojas que casas chiques têm, e que são conhecidas por mezanino. Bem que gostaria de ter uma casa com uma edícula iluminada por uma janelinha, como certas mansardas que a gente encontra em romances. Colocaria lá meu computador e poderia trabalhar enquanto espionava o funcionamento do fogão, da máquina de lavar roupa... Se fosse perto do mar, então, dominaria o mundo da minha edícula: veria a chegada e a saída dos navios, o vento nordeste das tardes, as marés baixas e as lestadas, a lua cheia prateando tudo... Céus, passei a sonhar que teria uma edícula, até que comecei a me dar conta de que quase todas as casas anunciadas tinham edículas – será que aquilo era mesmo o que estava a imaginar? Havia tanta gente assim, atualmente, fazendo sobrelojas nas suas casas?
                                   Fui a São Google, claro! Era tempo de ver se estava certa no que pensava, já que as enciclopédias e os dicionários, hoje, já não tem mais a mesma importância que tiveram um dia.
                                   Fiquei com a maior cara de tacho! Edícula não era, absolutamente, um mezanino – em português do Brasil, edícula não é nada mais nada menos que o que antes chamávamos de rancho, quiçá de puxado ou puxadinho!
                                   Passei a prestar mais atenção às fotos das casas, então. Nas edículas, hoje, normalmente existem churrasqueiras, o que não muda nada. Era bem num vazio do nosso rancho que o meu pai costumava fazer um braseiro e colocar sua grelha de assar churrasco, quando era dia de festa! “Ora, direis, ouvir estrelas![1][1]”. Nossos inocentes ranchos, hoje, foram promovidos e tem um nome sofisticado como edícula! Quem diria! O que será que foi que eu não li para não saber tal coisa?

Blumenau, 02 de junho de 2012.
Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR



[1][1] Verso de Olavo Bilac, poeta brasileiro.

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