vendredi 18 mai 2012

Entrevista com Jacqueline Aisenman por Rui Martins

Pela primeira vez, uma editora e livraria brasileira alugou um estande no Salão do Livro de Genebra e, durante cinco dias, vendeu livros com seus autores presentes autografando. Trata-se da Livraria Varal do Brasil, que também edita uma revista virtual com o mesmo nome, dirigida pela brasileira Jacqueline Aisenman.

Ali na rua Kafka, quase junto ao auditório destinado aos debates e entrevistas com os autores badalados e astros da escrita, a Varal do Brasil reuniu 14 escritores de editoras independentes, pequenas e médias, para receber os visitantes brasileiros, que se surpreendiam com a presença da literatura brasileira recémsaída das impressoras e com seus autores disponíveis para um papo. 

O ponto alto foi na sexta-feira, 27 de abril, às 15h00, quando diante do público, no palco chamado La Scène Libre, Varal do Brasil apresentou para os suíços e franceses presentes A Literatura de Cordel, com a participação dos escritores brasileiros Laudeci Ferreira, Valdeck Almeida de Jesus, acompanhados ao violão pelo músico e também escritor Marcelo Madeira. 

Ali estavam Mariana Brasil, cujo livro O Manuscrito de Sonia, o relato franco de uma profissional do sexo, inspirou Paulo Coelho; Lúcia Amélia Brulhardt com seu livro-mensagem de alerta contra o tráfico de mulheres Da Lama do Nordeste, à Fama da Europa; Josane Mary Amorim com seu romance Mevrouw Jane; Valdeck Almeida de Jesus, Beti Rozen, Rosemary Mantovani, Sandra Mara Bettonte, Laudecy Ferreira, Flávia Assaife, Ana Miquelin, Samarataine Pasquier e Val Beauchamp.
A própria Jacqueline Aisenman autografava seu novo livro Briga de Foice, apresentado, sábado dia 12, em Zurich pelo Cebrac.

Breve entrevista com Jacqueline Aisenman

Como surgiu a idéia de montar um stant no Salão do Livro de Genebra ?

A idéia surgiu a partir do momento que pensamos em não só editar editar os autores através da revista (www.varaldobrasil.ch), mas vender também seus livros pela livraria Varal do Brasil. Era, então, necessário se mostrar esses autores ao vivo para o público de Genebra e suíço que vai ao Salão. 
E fomos, como disseram alguns autores, um tanto ousados e nos lançamos juntos numa equipe fantástica e trouxemos a Genebra 14 autores para autografar e ganhamos espaço no palco da Cena Livre
para apresentar o cordel com o Valdeck, Laudeci e o Marcelo, no violão.

A Livraria já é digital ?

Pretendemos lançar o digital no ano que vem, pois é necessária toda uma nova estrutura no site e como nós estamos ainda começando na venda do livro papel, nós não temos ainda um ano de livraria, esperamos iniciar a edição digital no próximo ano.

Voce e seu esposo Paulo Roberto estão investindo bastante, quando custa uma parcela desta no Salão do Livro ?

Se formos pensar em todos os detalhes - pois não é só o estande que se paga, há toda uma estrutura em volta disso – nós, pequenos expositores, ultrapassamos de longe os 10 mil francos, pois temos de pagar desde uma tomada elétrica até ao catálogo. Para nós foi um grande investimento pensando nos autores, na difusão dos autores

E qual sua impressão, as visitas de pessoas ao estande corresponde ao desafio do investimento ?

A presença das pessoas demonstra que vale a pena investir nesse setor, porque as pessoas se surpreendem muito em encontrar a literatura brasileira e não a portuguesa e nos perguntam aqui em Genebra ? E nós respondemos – sim, aqui em Genebra.
Existe uma outra livraria, essa portuguesa, a Camões, mas eles trabalham com as grandes editoras. No nosso caso, somos diferentes e não existe uma concorrência com eles porque nós trabalhamos com autores independentes, pequenas e médias editoras e como estamos dando ênfase aos autores independentes e brasileiros, acho que fazemos um trabalho conjunto de divulgação da literatura.
E, por enquanto, queremos continuar na linha dos autores independentes pois eles têm muito a dizer, têm expressão livre e podem escrever o que quiserem por serem eles que editam e disso resultam coisas maravilhosas, romances, poemas, contos, crônicas, são muitos os estilos, são coisas maravilhosas.

Está tb pensando em editar ?

Já tenho alguma coisa parecida no Brasil junto com uma editora de Santa Catarina. Já editamos um pequeno livro de pensamentos pela Varal, justamente para difundir a boa energia e tudo mais. Estamos lançando agora o segundo volume do Varal Antológico, que é a edição impressa de autores que trabalham conosco e divulgam que escrevem na nossa revista. Acreditamos no formato digital e vamos permitir a utilização de diversos formatos no nosso site para as pessoas terem opção.


Tempos de crise – tempos de cuidado


Leonardo Boff

Teólogo/Filósofo

                               O tema do cuidado é, nos últmos tempos, cada vez mais recorrente na reflexão cultural. Primeiramente, foi veiculado pela medicina e pela enfermagem, pois representa a ética natural destas atividades. Depois foi assumido pela educação e pela ética e feito paradigma por filósofas e teólogas feministas especialmente norteamericanas. Veem nele um dado essencial da dimensão da anima, presente no homem e na mulher. Produziu e continua produzindo uma acirrada discussão especialmente nos EUA entre a ética de base patriarcal centrada no tema da justiça e a ética de base matriarcal assentada no cuidado essencial.

Ganhou força especial na discussão ecológica, constituindo uma peça central da Carta da Terra. Cuidar do meio-ambiente, dos recursos escassos, da natureza e da Terra se tornaram imperativos do novo discurso. Por fim, viu-se o cuidado como definição esencial do ser humano, como é abordado  por Martin Heiger em Ser e Tempo recolhendo uma tradição que remonta aos gregos, aos romanos e aos primeiros pensadores cristãos como São Paulo e Santo Agostinho.

Constata-se outrossim que a categoria cuidado vem ganhando força sempre que emergem situações críticas. É ele que impede que as crises se transformem em tragédias fatais.

A Primeira Grande Guerra (1914-1918), desencadeada entre paises cristãos, destruira o glamour ilusório da era vitoriana e produziu profundo desamparo metafísico. Foi quando Martin Heidegger(1889-1976) escreveu seu genial Ser e Tempo (1929), cujos parágrafos centrais (§ 39-44) são dedicados ao cuidado como ontologia do ser humano.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), despontou a figura do pediatra e psicólogo D. W. Winnicott (1896-1971) encarregado pelo governo inglês para acompanhar crianças órfãs ou vítimas dos horrorres dos bombardeios nazistas sobre Londres. Desenvolveu toda uma reflexão e uma prática ao redor dos conceitos de cuidado  (care), de preocupação pelo outro (concern) e de conjunto de apoios a crianças ou a pessoas vulneráveis (holding), aplicáveis também aos processos de crescimentoz e de educação.
            Em 1972 o Clube de Roma lançou o alarme ecológico sobre o estado doentio da Terra. Identificou a causa principal: o nosso padrão de desenvolvimento, consumista, predatório, perdulário e totalmente sem cuidado para com os recursos escassos da natureza e os dejetos produzidos. Depois de vários encontros organizados pela ONU a partir dos anos 70 do século passado, chegou-se à proposta do um  desenvolvimento sustentável, como expressão  do cuidado humano pelo meio ambiente mas centrado especialmente no aspecto econômico.
            O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) elaboraram em 1991 uma estratégia minuciosa para o futuro do planeta sob o signo Cuidando do Planeta Terra (Caring for the Earth 1991). Ai se diz: A ética do cuidado se aplica tanto a nivel internacional como  a níveis nacional e individual; nenhuma nação é auto-suficiente; todos lucrarão com a sustentabilidade mundial e todos estarão ameaçados se não conseguirmos atingi-la.
            Em março de 2000, recolhendo esta tradição, termina em Paris, depois de oito anos de trabalho a nível mundial, a redação da Carta da Terra. A categoria sustentabilidade,  cuidado ou o modo sustentável de viver constituem os dois eixos articuladores principais do novo discurso ecológico, ético e espiritual.  Em 2003 a UNESCO assumiu oficialmente a Carta da Terra e a apresentou como um substancial instrumento pedagógico para a construção responsável de nosso futuro comum.

Em 2003 os Ministros ou Secretários do meio ambiente dos países da América Latina e do Caribe elaboram notável documento Manifesto pela vida, por uma ética da sustentabilidade   onde a categoria cuidado é incorporada na idéia de um desenvolvimento para que seja efetivamente sustentável e radicalmente humano.

O cuidado está especialmente presente nas duas pontas da vida: no nascimento e na morte. A criança sem o cuidado não existe. O moribundo precisa do cuidado para sair decentemente  desta vida.

Quando desponta alguma crise num grupo gerando  tensões e divisões, é a sabedoria do cuidado  o caminho mais adequado para ouvir as partes, favorecer o diálogo e buscar convergências. O cuidado se impõe quando irrompe alguma crise de saúde que exige internação hospitalar. O cuidado é posto em ação por parte dos médicos, médicas, dos enfermeiros e enfermeiras, decidindo sobre o que melhor fazer.

O cuidado é exigido em praticamente todas as esferas da existência, desde o cuidado do corpo, da vida intelectual e espiritual, da condução geral da vida até ao se atravessar uma rua movimentada, Como já observava o poeta romano Horácio, “o cuidado é aquela sombra que  nunca nos abandona porque somos feitos a partir do cuidado”.

Hoje dada a crise generalizada seja social seja ambiental, o cuidado torna-se imprescindível para preservarmos a integridade da Mãe Terra e salvaguardar a continuidade de nossa espécie e de nossa civilização.

Programa Debates Culturais de sábado, dia 19 de maio de 2012


Aviso aos meus amigos que sábado, dia 19 de maio, o programa Debates Culturais terá, além de mim, Alessandro Lyra Braga, as presenças da coordenadora da Equipe Resgato – sociedade civil pelos direitos dos animais, Marli Moraesdo psicólogo, especializado em doença da compulsão, Roberto Antunes; do administrador e militante de vários movimentos de mobilização popular, Ricardo Novaes; do presidente do Comitê de Sustentabilidade da Associação Comercial e Industrial de JacarepaguáRobert Barboza; e, do coronel reformado da Polícia Militar do Rio de JaneiroMilton Corrêa da Costa.



Conversaremos sobre a questão das drogas, o crescimento do consumo do crack e sobre a proposta de descriminalização da maconha. Debateremos ainda sobre os impactos ambientais de grandes obras públicas em áreas urbanas. Falaremos ainda sobre políticas de segurança pública e o crescimento da criminalidade nos centros urbanos.



O programa Debates Culturais é transmitido pela Rádio Boas Novas AM 1320 do Rio de Janeiro, todos os sábados, a partir das 14:00hs. Quem desejar participar por telefone com perguntas e/ou comentários, pode fazê-lo pelo telefone 2576-8484. O programa também poderá ser ouvido ao vivo pela internet, acessando o site da emissora, http://www.radioboasnovas.com.br/. Quem não puder ouvir nosso programa ao vivo, poderá ouvi-lo na íntegra, quando desejar, em nossa revista eletrônica http://www.debatesculturais.com.br, acessando, na barra azul de botões, a seção “Áudio dos Programas”





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A todos os meus amigos, um bom final de semana e espero que gostem do programa e dos artigos da revista!


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