mercredi 9 mai 2012

SEXTA-FEIRA DIA 12 DE MAIO, CAFÉ LITERÁRIO NO CEBRAC DE ZURIQUE

Sustentabilidade e Educação


Leonardo Boff

Teólogo e Filósofo

                                                
A sustentabilidade, um dos temas entrais da Rio+20, não acontece mecanicamente. Resulta de um processo de educação pela qual o ser humano redefine o feixe de relações que entretém com o Universo, com a Terra, com a natureza, com a sociedade e consigo mesmo dentro dos critérios de equilíbrio ecológico, de respeito e amor à Terra e à comunidade de vida, de solidariedade para com as gerações futuras e da construção de  uma democracia sócio-ecológica sem fim.

Estou convencido de que somente uma processo generalizado de educação pode criar novas mentes e novos corações, como pedia a Carta da Terra, capazes de fazer a revolução paradigmática exigida pelo risco global sob o qual vivemos. Como repetia com freqüência Paulo Freire:”a educação não muda o mundo mas muda as pessoas que vão mudar o mundo”. Agora todas as pessoas são urgidas a mudar. Não temos outra alternativa: ou mudamos ou conheceremos a escuridão.

Não cabe aqui abordar a educação em seus múltiplos aspectos tão bem formulados em 1996 pela UNESCO: aprender a conhecer, a fazer, a ser e a viver juntos; eu acrescentaria aprender a cuidar da Mãe Terra e de todos os seres.

Mas este tipo de educação é ainda insuficiente. A  situação mudada do mundo exige que tudo seja ecologizado, isto é, cada saber deve prestar a sua colaboração a fim de proteger a Terra, salvar a vida humana e o nosso projeto planetário. Portanto, o momento ecológico deve  atravessar todos os saberes.

A 20 de dezembro de 2002 a ONU aprovou uma resolução proclamando os anos de 2005-2014 a Década da educação para o desenvolvimento sustentável. Neste documento se definem 15 perspectivas estratégicas em vista de uma educação para  sustentabilidade. Referiremos algumas:

Perspectivas socioculturais que incluem: direitos humanos, paz e segurança; igualdade entre os sexos; diversidade cultural e compreensão intercultural; saúde; AIDS; governança global.

Perspectivas ambientais que comportam: recursos naturais (água, energia, agricultura e    biodiversidade); mudanças climáticas; desenvolvimento rural; urbanização sustentável; prevenção e mitigação de catástrofes.

Perspectivas econômicas que visam: a redução da pobreza e da miséria; a responsabilidade e a prestação de contas das empresas.

Como se depreende, o momento ecológico está presente em todas as disciplinas: caso contrário não se alcança uma sustentabilidade generalizada. Depois que irrompeu o paradigma ecológico, nos conscientizamos do fato de que todos somos ecodependentes. Participamos de uma comunidade de interesses com os demais seres vivos que conosco compartem a biosfera. O interesse comum básico é manter as condições para a continuidade da vida e da própria Terra, tida como  Gaia. É o fim último da sustentabilidade.      

A partir de agora a educação deve impreterivelmente incluir as quatro grandes tendências da ecologia: a ambiental, a social, a mental e a integral ou profunda (aquela que discute nosso lugar na natureza). Mais e mais se impõem entre os educadores esta perspectiva: educar para o bem viver  que é a arte de viver em harmonia com a natureza e propor-se repartir equitativamente com os demais seres humanos  os recursos da cultura e do desenvolvimento sustentável.

Precisamos estar conscientes de que não se trata apenas de introduzir corretivos ao sistema que criou a atual crise ecológica mas de educar para sua transformação. Isto implica superar a visão reducionista e mecanicista ainda imperante e assumir a cultura da complexidade. Ela nos permite ver as interrelações do mundo vivo e as ecodependências do ser humano. Tal verificação exige tratar as questões ambientais de forma global e integrada. Deste tipo de educação se deriva a dimensão ética de responsabilidade e de cuidado pelo futuro comum da Terra e da humanidade. Faz descobrir o ser humano como o cuidador de nossa Casa Comum e o guardião de todos seres. Queremos que a  democracia sem fim (Boaventura de Souza Santos) assuma as características socioecológicas pois só assim será adequada à era ecozóica e responderá às demandas do novo paradigma. Ser humano, Terra e natureza se pertencem mutuamente. Por isso é possível forjar  um caminho de convivência pacífica. É o desafio  da educação.

Palestra Ação - Acidentes e Doença - quinta-feira 17 Maio, 19 horas

15 Concurso de Fotografias em Arroios, Portugal-

Crônica da Urda


Oritual e a música dos meninos

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                                   (Excertos do livro "Viagem ao Umbigo do Mundo",publicado em 2006.)

                                  

                                    

                                   Quanto ao ritual da Pachamanca, que os meus amigos conheceram naquele dia, há que dar maiores detalhes. Pachamanca, literalmente, quer dizer “onda de terra”, e representa o banquete dos Andes peruanos por excelência. Na cultura andina a comida está entrecruzada com o culto à Natureza e com as efemérides sociais. A Pachamama (ou Mãe-Terra) é fonte de fertilidade, de vida, e também fonte de numerosos produtos que voltam a ela para serem cozinhados. Tal ritual é feito principalmente em fevereiro e março, como celebração da colheita, mas fora aberta uma exceção para homenagear aos visitantes vestidos de negro que tinham vindo de tantas partes da América!

                                   Sintetizando uma Pachamanca: se enterram no solo e se cozinham com pedras em brasa as diversas carnes: gado, porco, galinha, carneiro, cuey, e as verduras: batatas, batatas-doces, vagens, milho verde, junto com milho ao molho branco e queijo derretido. O sabor que a terra quente dá a esses produtos é realmente especial. Apesar de hoje se usarem carnes que foram trazidas para a América pelos espanhóis, a Pachamanca remonta à épocas pré-coloniais, e seu caráter ritual é uma forma de render homenagem à divindade Terra, comendo diretamente das suas entranhas os produtos que ela fecunda. A elaboração da Pachamanca demora horas e exige a participação de muitos membros da comunidade, homens e mulheres. Há uma ordem no enterramento das carnes, tubérculos e temperos, que são colocados sobre e sob as pedras em brasa protegidos por ervas úmidas e folhas de bananeira. Depois, se cobre a Pachamanca com terra, cuidando para que esteja hermeticamente fechada e não escape calor nem fumaça. Cobre-se a mesma, depois, com uma cruz de flores. [1][1] É uma grande honra ser recebido com uma Pachamanca, e imagino que os meus amigos entenderam a homenagem que lhes foi feita.

                                   Nessa noite, quando andava por uma das calçadas do centro de Cusco, acabei dando de cara com seu Chico, Jaka e o Lobo. Eles tinham comprado casacos de lã de lhama e estavam a inaugurá-los, e acabamos rindo todos juntos, pois aqueles casacos só serviam para aquele clima. Aonde vivíamos dificilmente seria frio o suficiente para que se usassem tais bonitos casacos, que acabariam sua história num armário. Já que ríramos juntos fomos jantar juntos num elegante restaurante num segundo andar, bem na Praça de Armas de Cusco. Durante a refeição apareceu por lá um grupo de meninos músicos que era para a gente nunca mais esquecer. Eram cinco irmãos parecidíssimos, usando roupas típicas iguais, o que os tornava ainda mais parecidos. A diferença entre eles estava na idade – o mais velho estaria entrando pelos 12 anos, e o menorzinho só teria uns cinco. Todos eram bons músicos e tocavam seus instrumentos andinos como antigos antepassados deles devem ter tocado milhares de anos antes, inclusive usando roupas parecidas às que eles usavam agora, mas o menorzinho, aquele de uns cinco aninhos, roubava a cena. O menino era um artista nato, incorporava o que fazia, e o fazia tão bem que ficava-se com vontade de roubá-lo, traze-lo junto para amá-lo muito e muito por toda a vida! Os PHD e aquele grupo já se conheciam de viagens anteriores, e havia adesivos dos PHD nos seus instrumentos musicais. Era uma noite de paz e de emoção, e quando os meninos começaram a tocar uma nova música, e nos preparávamos para mergulhar no passado antigo da América através dela, Jaka e eu nos entreolhamos espantados e caímos na risada: aqueles meninos que eram como que um símbolo do Peru, de repente estavam tocando Obladi-Obladá, dos Beatles! É impressionante como as culturas se interpenetram e se mesclam neste mundo repleto de diversidades! Como historiadora, sei quantos estudos se fazem sobre tal tema – e estavam lá os meninos cusqueños a tocarem Obladi-Obladá com a naturalidade de meninos ingleses, testemunhando a cientificidade de coisas que eu lera em livros! Queridos meninos peruanos, não há como não guardá-los no coração para sempre!  





[2][1] Agradecemos aqui a colaboração do PHD Enrique Navarro, de Lima, Peru, que nos elucidou quanto aos detalhes da Pachamanca. (Nota da autora)



                                    Urda Alice Klueger

Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR





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