mercredi 4 avril 2012

Nova cosmologia e libertação

Leonardo Boff

Teólogo/Filósofo

Tempos atrás o Museu Americano de História Natural fez uma consulta entre biólogos  perguntando se eles acreditavam que estávamos no meio de uma extinção em massa. 70% responderam positivamente que sim. O renomado cosmólogo Brian Swimme, autor junto com Thomas Berry de uma das mais brilhantes narrativas da história do Universo (The Universe Story,1992) foi perguntado o que poderíamos fazer, respondeu:”O universo já vem, há tempos, fazendo a sua parte para deter o desastre; mas nós temos que fazer a nossa. E o faremos mediante o despertar de uma nova consciência cosmológica, vale dizer, se ajustarmos  nossas condutas à lógica do Universo. Mas não estamos fazendo o suficiente”.

Que quer dizer esta resposta? Ela acena para uma nova  consciência que assume a responsabilidade coletiva com referência à proteção de nossa Casa Comum e à salvaguarda de nossa civilização. E ajustar nossas condutas à lógica do Universo significa responder aos apelos que nos vem do assim chamado “princípio cosmogênico”. Este é o que estrutura a expansão e a autocriação do universo com todos os seus seresinertes e vivos. Ele se manifesta por três características: a diferenciação/complexificação; a subjetividade/interiorização; e a interdependência/comunhão.

Em palavras mais simples: quanto mais o universo se expande, mais se complexifica: quanto mais se complexifica mais ganha  interiozação e a subjetividade (cada ser tem seu modo próprio de se relacionar e fazer a sua história) e quanto mais ganha interiorização e subjetiviadade  mais os seres todos entram em comunhão entre si e reforçam sua interdependência no quadro de um pertencimento a um grande Todo. Comentam Berry/Swimme:”Se não tivesse havido complexidade (diferenciação), o universo ter-se-ia fundido numa massa homogênea; se não tivesse havido subjetividade, o universo ter-se-ia tornado uma extensão inerte e morta: se não tivesse havido comunhão, o universo ter-se-ia transformado num número de eventos isolados”.

Nós teólogos da libertação, em quarenta anos de reflexão, temos  tentado explorar as dimensões econômicas,sociais, antropológicas e espirituais da libertação como resposta às opressões específicas. No contexto da crise ecológica generalizada, estamos tentando  incorporar esta visão cosmológica. Esta nos obrigou a quebrar o paradigma  convencional com o qual organizávamos nossas reflexões, ligadas  ainda à cosmologia mecanicista e estática. A nova cosmologia vê diferentemente o universo, como um processo incomnsurável de evolução/expansão/criação, envolvendo tudo o que se passa em seu interior, também a consciência e sociedade.

Em termos do princípio cosmológico, libertação pessoal significa: libertar-se de amarras  para sentir-se em comunhão com todos os seres e com o universo,  fenômeno que os budistas chamam de “iluminação” (satori), uma experiência de não-dualidade e que São Francisco viveu no sentido de uma irmandade aberta com todos os seres. Em termos sociais, a libertação, à luz do princípio cosmogênico é: a criação de uma sociedade sem opressões onde as diversidades são valorizadas e expandidas (de gênero, de culturas e caminhos espirituais). Isso implica deixar para trás a monocultura do pensamento único na política, na economia e na teologia oficial. Este é o principal fator de opressão e de homogeneização.

A libertação requer também um aprofundamento da interioridade. Esta já não se satisfaz com o mero consumo de bens materiais; pede valores ligados à criatividade, às artes, à meditação e à comunhão com a Mãe Terra e com o Universo. A libertação resulta do reforço da “matriz relacional” especialmente com aqueles que sofrem injustiças e são excluidos. Esta matriz nos faz sentir  membros da comunidade de vida e filhos e filhas da  Mãe Terra que através de nós sente, ama, cuida e se preocupa pelo futuro comum.

Por fim, a libertação na perspectiva cosmogênica demanda uma nova consciência de interdependência e de responsabilidade universal. Somos chamados a reinventar nossa espécie, como o fizemos no passado nas várias crises pelas quais a humanidade passou. Agora ela é urgente porque não temos muito tempo e  devemos estar à altura dos desafios da atual crise da Terra.

Escritor baiano lança romance ”...e assim vivi”

O escritor Rudival Rodrigues lança com o apoio da Fundação Òmnira e UBE-União Brasileira de Escritores, o seu romance “… e assim vivi”, Ed. Biblioteca 24 horas, na Biblioteca Pública Thales de Azevedo (Rua Adelaide Fernandes da Costa, s/n – Costa Azul, em Salvador), dia 13 de abril (sexta-feira), das 17:00 as 20:00h. A publicação é composta por dois volumes. Mais informações (71) 8220-1800 / 8146-0940.



Sinopse da obra: Em visita à sua família no interior, na virada do ano de 1985, Petty reencontra as meninas de seus olhos, Celina e Catarina. A expectativa de fazer desta sua namorada leva-o à sua casa, no entanto, é Celina quem resolve o jogo; se antecipa à amiga e resolve namorá-lo, frustrando-a.

Convidado pelo prefeito de Por do Sol, cidade das amigas, Petty assume secretariar a Casa do Poeta, órgão municipal de cultura, e gera uma revolução na pacata cidadezinha, deixando todos em polvorosa, o que contribui para que ele assuma o namoro com Celina, uma vez transferido para a cidade dela.

Mauro, ex-namorado de Celina, decide não deixar barato a perda da namorada e prepara, silenciosamente, sua vingança, despertando em todos os amigos de Petty real preocupação, em especial, na família de Celina que quer, a todo preço, evitar confrontos.

Petty visita George, seu irmão no Sul, e em seu retorno elabora polêmico projeto para Por do Sol, sua nova cidade, o que deixa todos em profunda agitação.

Após muita controvérsia, Petty inicia o dito projeto, mas é forçado a desertar da cidade sem deixar pistas, e isso deixa todos desesperados, pois, mesmo o maior suspeito, que é Mauro, está fora da cidade há quase dois anos. Familiares e amigos se mexem no sentido de tentarem localizar o foragido, até o Sr. Thiago, pai deste e seu maior admirador, ordenar que o deixem em paz, pois ele certamente sabe o que fez e porque fez. Todos silenciam.

Algum tempo após a partida de Petty, Mauro retorna, compra o jornal da cidade, se estabelece como jornalista e homem promissor; retoma o projeto “Petty Willames”, oferece alguma esperança, persegue e desposa Celina, que já perdeu o gosto pela vida, abandona o projeto retomado e se muda com a esposa para São Paulo.

Por do Sol perde o brilho da esperança que nascera com a presença de Petty Willames, o jornal sucumbe, o desenvolvimento é retido e assim se passam quinze anos.

Em seu exílio, Petty reencontra sua fã Isabella, ora Olímpia Ragy, que apesar de muito jovem, faz sucesso como gente grande na área das artes plásticas, lhe rendendo o epíteto de “a deusa dos pincéis”.

Os dois se envolvem e vivem fortes emoções. Decidida a aposentar os pincéis, Olímpia programa sua vida de mãe, e ao encantamento de seu primeiro filho, ela se deslumbra, confessa seu amor, agradece por todas as maravilhas alcançadas, se embala na felicidade plena e ao se deparar com o momento especial que lhe falta, não o resiste; deixa o filho aos cuidados dos vivos.

Mais uma vez Petty se desespera, novamente lhe falta o chão; decide retornar sozinho ao seu passado e reencontra Por do Sol numa situação de abandono. Gregório, seu inestimável primo e amigo de infância, funda uma biblioteca em Amparo, cidade Natal de ambos, e homenageia o primo pondo-lhe seu nome.

Ao reaparecer na cidade gera reboliço e reaviva o fogo da esperança nos pobres aldeões semimortos que restam.

Os amigos restabelecem, a família entra em frenesi, a cidade respira novo. Petty não sabe o que fazer, sente-se perdido, sem rumo, sem amores, sem sonhos, sem amanhã novo.

A cidade o convoca e lhe propõe a retomada de seu antigo projeto, ele aceita, se envolve, e em tempo recorde conclui-o para o deslumbramento geral. Em paralelo, ele prepara seus livros projetados em seu exílio, e assegura a publicação dos mesmos para a ocasião da entrega das obras de seu projeto, o que o enaltece mais ainda perante todos.

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Rudival Rodrigues nascido em Ribeira do Amparo é graduado em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia escreve além de romance, poesias e contos, inclusive já tendo participado de algumas coletâneas, antologias e revistas literárias, dentre elas Sotaquenologia Poética, Poieticontemporimas & Versos, Salvador 460 Anos de Poesia e da Revista Òmnira Nº4 (ambas Ed. Òmnira/BA). Tem uma vasta coletânea de frases que futuramente pretende transforma-la em livro. Como funcionário público estadual trabalha no Tribunal de Justiça da Bahia e é militante sindical.



Fonte: ASCOM/Fundação Òmnira

Foto: Roberto Leal

COISAS DE CUSCO!!!

Excertos do livro "Viagem ao Umbigo do Mundo", publicado em 2006.)



                                      Vaguei por todo aquele centro de Cusco naquela noite, espiando as vitrines, os simpáticos garçons cusqueños que, de cardápio na mão, ficavam nas calçadas oferendo os pratos finos dos seus restaurantes, como pratos de vicunha, por exemplo – sobre os Andes, se possível, eu só como galinha e porco, para estar certa de não estar comendo nenhum dos seus camelídeos. Acho as lhamas, as alpacas e as vicunhas tão bonitinhas, parecidas com bichinhos de pelúcia, que não quero comê-las – embora também ache tão lindas as vacas e outros animais que como na minha cultura. Diria que é uma questão cultural – embora creia que mais de uma vez já tenha comido aqueles bichinhos lindos e macios, sem saber ao certo o que era, e talvez tenha até gostado. Então dá um certo trabalho comer em Cusco, pois os restaurantes locais se orgulham muito das suas vicunhas e outros pratos à base dos camelídeos.

                                   Fiquei por ali sem pressa, vagando entre os restaurantes e as vitrines cheias de coisas maravilhosas que os Andes produzem, desde objetos e roupas até passeios encantadores, e fiz câmbio, e achei um locutório especialmente simpático, de onde fiquei freguesa em todos os dias em que estivemos lá. Na verdade, os locutórios enxameavam por toda a cidade – penso que só em torno da Praça de Armas havia muitas dezenas – cada cantinho possível escondia um locutório, e eles estavam sempre cheios, tamanho é o afluxo de turistas naquela cidade encantada. Convém contar uma coisa interessante a respeito deles: os computadores, variando de país para país, tem teclados com as letras em lugares diferentes, e a gente demora uns dias para se acostumar com o teclado de cada país. O @, por exemplo é uma tristeza – em cada país ele é obtido de um jeito diferente – digamos que no país Tal seja usando-se o Shift + 8, e no outro seja n + 4, e assim vai. Como tínhamos vindo viajando muito rapidamente, quando eu me acostumava com o @ daquele país, já estávamos a  adentrar a outro, e começava um novo aprendizado. Em Cusco, porém, a coisa complicava – devido ao grande fluxo de turistas israelenses sempre por ali, além de o teclado ter as letras e símbolos em lugares diferentes, ainda tinha um pequeno adesivo encobrindo-o, onde estava impresso o sinal correspondente em hebraico, para que os israelenses pudessem entendê-lo. Penso que era a parte mais complicada de Cusco, mas mesmo assim já na primeira noite consegui responder às mensagens que me esperavam, e escrever o diário que mandava para o Brasil.

                                               E fiquei depois a flanar pelo Umbigo do Mundo até me sentir com vontade de voltar ao hotel,o que fiz novamente à pé, apesar dos 3.400 m de altitude. Em Cusco pode-se fazer coisas que nos outros lugares não dá!





        Urda Alice Klueger

Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR


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