lundi 30 janvier 2012

Por onde andam nossas putas

Por Márcio José Rodrigues


Acabaram-se, pelo menos aqui no interior, o assédio e trottoir das prostitutas embriagadas pelos bares da cidade a angariar clientes. Não mais se ouvem os diálogos bêbados sussurrados dos boêmios tresnoitados e as “mulheres de rua” nos botequins fumacentos.   Também fecharam os inferninhos, casas de tolerância e as famosas zonas cederam seus terrenos a áreas residenciais familiares e uma antiga “boite” de sucesso hoje é uma igreja evangélica.
Teriam sido elas exorcizadas, queimadas em fogueiras, expulsas de seu pecaminoso trabalho por campanhas sociais de uma comunidade unida e atuante, lúcida e participativa, rígida em seus conceitos de moral?
Se quiser saber, eu digo:
- As putas faliram!
Não aguentaram a concorrência que oferece sexo gratuito ou no máximo em troco de uma latinha de cerveja e um prato de batatinhas.
O banimento da moral e da prática religiosa, que começa pelos mais altos patamares da governança, a “liberdade” proclamada nos anos 60, os “anos dourados”, formaram gerações de pais amedrontados e apáticos que preferem não ver nem ouvir, para não se incomodarem com problemas que eles não têm capacidade de solucionar dentro de sua própria casa.
Foram vencidos pela crise da autoridade e da estrutura familiar.
O desprezo com que as autoridades tratam a família, o emprego, a educação, gerou seus frutos.  Perda de controle, libertinagem, curtição sem limites, álcool e drogas precoces, DSTs, desencanto com as pessoas, fragilidade de laços afetivos, frustrações amorosas, falência dos sonhos, ausência de futuro.
A mídia cada vez mais agressiva, dedicada até a raiz da alma ao culto de lucro sem escrúpulos, massifica sem trégua o seu evangelho segundo Bial:
- “Agarre tudo o que você puder agora! Amanhã pode não existir!
 É claro que generalizar é burrice e pecado.
As pessoas que não participam desta loucura, fiquem tranquilas. O mundo sempre terá uma chance melhor com vocês.

Desenvolvimento sustentável:crítica ao modelo padrão


Leonardo Boff
Teólogo/Filósofo
                                 

Os documentos oficiais da ONU e também o atual borrador para a Rio+20 encamparam o modelo padrão de desenvolvimento sustentável: deve ser economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto. É o famoso tripé chamado de Triple Botton Line (a linha das três pilastras), criado em 1990 pelo britânico John Elkington, fundador da ONG SustainAbility. Esse modelo não resiste a uma crítica séria.

Desenvolvimento economicamente viável: Na linguagem política dos governos e das empresas, desenvolvimento equivale ao Produto Interno Bruto (PIB). Ai da empresa e do pais que não ostentem taxas positivas de crescimento anuais! Entram em crise ou em recessão com conseqüente diminuição do consumo e geração de desemprego: no mundo dos negócios, o negócio é ganhar dinheiro, com o menor investimento possível, com a máxima rentabilidade possível, com a concorrência mais forte possível e no menor tempo  possível.

Quando falamos aqui de desenvolvimento não é qualquer um, mas o realmente existente que é aquele industrialista/capitalista/consumista. Este é antropocêntrico,  contraditório e equivocado. Explico-me.

É antropocêntrico  pois está centrado somente no ser humano, como se não existisse a comunidade de vida (flora e fauna e outros organismos vivos) que também precisa da biosfera e demanda igualmente sustentabilidade. É contraditório, pois, desenvolvimento e sustentabilidade obedecem a lógicas que se contrapõem. O desenvolvimento realmente existente é linear, crescente, explora a natureza e privilegia a acumulação privada. É a economia política de viés capitalista. A categoria sustentabilidade, ao contrário, provém das ciências da vida e da ecologia, cuja lógica é circular e includente. Representa a tendência dos ecossisstemas ao equilíbrio dinâmico, à interdependência e à  cooperação de todos com todos. Como se depreende: são lógicas que se auto-negam: uma privilegia o indivíduo, a outra o coletivo, uma enfatiza a competição, a outra a cooperação, uma a evolução do mais apto, a outra a co-evolução de todos interconectados.

É equivocado, porque alega que a pobreza é causa da degradação ecológica. Portanto: quanto menos pobreza, mais desenvolvimento sustentável haveria e menos degradação, o que é equivocado. Analisando, porém, criticamente, as causas reais da pobreza e da degradação da natureza, vê-se que resultam, não exclusiva, mas principalmente, do tipo de desenvolvimento praticado. É ele que produz degradação, pois delapida a natureza, paga baixos salários e gera assim pobreza.

A expressão desenvolvimento sustentável representa uma armadilha do sistema imperante: assume os termos da ecologia (sustentabilidade) para esvaziá-los. Assume o ideal da economia (crescimento)   mascarando, a pobreza que ele mesmo   produz.

Socialmente justo: se há uma coisa que o atual desenvolvimento industrial/capitalista não pode dizer de si mesmo é que seja socialmente justo. Se assim fosse não haveria 1,4 bilhões de famintos no mundo e a maioria das nações na pobreza. Fiquemos apenas com o caso do Brasil. O Atlas Social do Brasil de 2010 (IPEA) refere que cinco mil famílias controlam 46% do PIB. O governo repassa anualmente 125  bihões de reais ao sistema financeiro para pagar com juros os empréstimos feitos e aplica apenas 40 bilhões para os programas sociais que beneficiam as grandes maiorias pobres Tudo isso denuncia a falsidade da retórica de um desenvolvimento socialmente justo, impossível dentro do atual paradigma econômico.

Ambientalmente correto: O atual tipo de desenvolvimento se faz movendo uma guerra irrefreável contra Gaia, arrancando dela tudo o que lhe for útil e objeto de lucro, especialmente, para aquelas minorias que controlam o processo. Em menos de quarenta anos, segundo o Índice Planeta Vivo da ONU (2010) a biodiversidade global sofreu uma queda de 30%. Apenas de 1998 para cá houve um salto de 35% nas emissões de gases de efeito estufa. Ao invés de falarmos nos limites do crescimento melhor faríamos  falar nos limites da agressão à Terra.

Em conclusão, o modelo padrão de desenvolvimento que se quer sustentável, é retórico.  Aqui e acolá se verificam avanços na produção de baixo carbono, na utilização de energias alternativas, no reflorestamento de regiões degradadas e na criação de  melhores sumidouros de dejetos. Mas  reparemos bem: tudo é realizado desde que não se afetem os lucros, nem se enfraqueça a competição. Aqui a utilização da expressão “desenvolvimento sustentável”possui uma significação política importante: representa uma maneira hábil de desviar a atenção para a mudança necessária de paradigma econômico se quisermos uma real sustentabilidade. Dentro do atual, a sustentabilidade é ou localizada  ou inexistente.

E OS JOVENS?

Gilberto Nogueira de Oliveira


Nazaré, 06-12-1994

Vocês serão sempre jovens,
Vocês viverão sempre jovens,
Porque morrerão jovens,
Entorpecidos por uma fumaça
Velha, cinza e estonteante.
Sufocados por um pó
Jovem, branco e sedutor.
Na garganta um nó,
Nos olhos, complexo de cor.
Vocês já pensaram no país?
Ele está doente.
Governado por velhacos
Que já foram entorpecidos
Pela cinza fumaça,
E que hoje lhes impõe o pó.
Os velhos governantes
Usam a velha propaganda,
E incentivam os novos
A usarem as novas drogas.
Cocaína, crack, televisão, computador, celular,
E fazem a cabeça dos jovens
Que pararam no tempo,
E enriquecem os velhos
De um país sem futuro.
Onde estão os revolucionários?
Aderiram ao sistema?
Os jovens ouvem os velhos velhacos
E morrem indiferentes
Diante da televisão,
Com tela, sem visão...
Os jovens não se ligam em nada
E ligam a televisão
Desligando-se da realidade.                                                                                                          
É falta de professores?
Por onde andam os homens
Experientes e virtuosos?
Contratados pelo velho sistema?
Talvez...
Vocês querem o suicídio?
Vocês que tem coragem
Virem Kamikasis.
Peguem um granada
E levem com vocês
Todos os corruptos.
É só aproveitar um comício...
Estão todos juntos
No palanque capitalista.
É melhor que morrer
Covardemente de over dose.
O abuso de poder
Neste país absurdo
Atingiu o ápice.
Certa vez, um guarda rodoviário
Com curso primário incompleto,
Parou um carro de um cientista.
Como nada encontrou
Para aplicar a multa arrecadatória,
Depois de uma hora de sufoco,
O guarda alegou
No seu abuso de autoridade,
Que o cientista estava
Dirigindo sem óculos.
-Mas, eu não uso óculos!
-Isso não é problema meu.
Todo cientista usa óculos.
Eu quero a multa por que
Sou pago para multar.
E o cientista que perdeu seu tempo,
Teve que pagar a multa                                                                                                          
Por não ser míope.
Quando ele entrou no carro
Começou a imaginar:
Porque um país de jovens
Elegem tantos velhos burros?
Seriam os jovens, burros
Ou seriam burros, os jovens?
Seria o jovem guarda, um burro
Ou seria burra, a jovem guarda?

Fotocolagem com poema de Madhu Maretiore: Diálogos

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