mardi 17 janvier 2012

OI, TENTA

OI, TENTA



AGUINALDO LOYO BECHELLI

  

Já escreveram tudo. / Vejo nas livrarias, / sebos, belchior, / feiras, cercanias. / Esmiuçaram. / Com ou sem louvor, / declamaram. / Não me sobra nem título. / Inventei e rasguei: / O FILHO DO GATO”, / “SIMEÃO BROCA”, / “O ESMIGALHÃO”. / Faltou-me original capítulo. / Se o ato é ser, / pra que retrato? / Há sempre o risco inútil: / cometer a frase eterna. / Erudição hiberna  /  a grandeza do fútil. /  Universalidade do que existe / consiste no mínimo, reles. / Só me resta, mudo, / escrever sem papel. / Talvez na areia, miúdo, / perto das marolas / Mas principalmente / com a mente. Veia. / E quando os gabolas, / banqueiros, sócios, /  no importante coquetel, julgarem-me sério, / na deles, em certeiras, / calculando  negócios, /  estarei poemando, aéreo,  / sem visar prateleiras.



Estes meus versos servem de pinça. Acabo de completar 80 anos, mas não pretendo fazer como o importante escritor Rubem Alves: só porque fez 78 anos, vai nos privar de sua criatividade e sensibilidade,  entregues numa salva de prata no caderno “Cotidiano”, da Folha de S.Paulo (1.11.11). Queixa-se de velhice e cansaço, mas quem escreve tal texto de despedida, não está velho nem cansado. Pode ser idoso, como eu, porém velho em folha. E se ele topar, podemos conversar para ver o que vamos fazer nos próximos vinte anos.



Larga mão desses melindres, ó respeitável Alves, e volte a nos presentear com os seus textos. Faça como Sylvio Caldas: despediu-se dez vezes e voltou onze.



A minha decisão é diferente da dele. Apenas parei de correr para atingir o que ele merecidamente alcançou: notoriedade, por ser notável. Ser lido por centenas de pessoas em jornal consagrado. Enquanto fui atrás, serviu-me para pegar no tranco. Dessa vaidade besta,  restou-me a vaidade de não ter essa vaidade. Ele mesmo, o bom Rubem, nunca me respondeu sobre os escritos que lhe enviei.



Sinto-me gratificado pela  restrita e benevolente claque que conquistei durante mais de 40 anos escrevendo crônicas com “ênfase na comédia humana”. E o fato de Rubem Alves não saber quem sou, não me frustra. E ele nada perdeu,  em face de sua cultura socada.

De minha parte, enquanto o olho na nuca permitir, continuarei a escrever, tentando, atento, quem sabe lavrar um tento e debochar: Oi, tenta.



Contento-me, muito, com as menções honrosas que recebi de expoentes como Otto Lara Resende, Jorge Medauar, André Carneiro, Ruy Fernando Barboza, Rivadávia de Souza, Francisco Vella (Zapata), Jorginho Medauar, Antoine Beyamin Bahi, Carlos Magno, Augusto Rodrigues, Clóvis Graciano, Lanfranco Vasely (Lan),  João Christiano Maldonado,  César Romão, Flora Figueiredo, Glênio Reis, Henrique G.M. Tamm, Jacob Klintowitz, João A.R.Garcia (Jão), João Tomas do Amaral,  José Luiz Ribeiro, Juan Arce,  Luiz Toledo Machado, Antoninho Franca Pinto, Nelson M.Sayão Filho, Adelino Rosani,  Juvenal Carvalho da Costa,  Carlos Pinto, Paulo Mohylovski, Rejane Machado, Renato Primi e Ryad Simon.

Mas não menos importantes os meus assíduos leitores,  gente simples, sem destaque nos meios intelectuais, porém extraordinária.



Quem quiser conferir o fôlego do meu bestialógico, leia o livro que acabo de lançar – CAUSOS CAUSADOS – “CÓCEGAS NA INTELIGÊNCIA”.  




Aguinaldo Loyo Bechelli

Cronista. Poeta. Percussionista



Crônica publicada na Revista ELITE LUXURY – N.63 – Dez./2011

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