lundi 9 janvier 2012

Pensamentos e Sonhos sobre o Brasil

Leonardo Boff
Teólogo/Filósofo
                                   

1. O povo brasileiro se habituou a “enfrentar a vida” e a conseguir tudo “na luta”, quer dizer, superando dificuldades e com muito trabalho. Por que não iria “enfrentar” também o derradeiro desafio de fazer as mudanças necessárias, para criar relações mais igualitárias e acabar com a corrupção?
2. O povo brasileiro ainda não acabou de nascer. O que herdamos foi a Empresa-Brasil com uma elite escravagista e uma massa de destituídos. Mas do seio desta massa, nasceram lideranças e movimentos sociais com consciência e organização. Seu sonho? Reinventar o Brasil. O processo começou a partir de baixo e não há mais como detê-lo.
3. Apesar da pobreza e da marginalização, os pobres sabiamente inventaram caminhos de sobrevivência. Para superar esta anti-realidade, o Estado e os políticos precisam escutar e valorizar o que o povo já sabe e inventou. Só então teremos superado a divisão elites-povo e seremos uma nação una e complexa.
4. O brasileiro tem um compromisso com a esperança. É a última que morre. Por isso, tem a certeza de que Deus escreve direito por linhas tortas. A esperança é o segredo de seu otimismo, que lhe permite relativizar os dramas, dançar seu carnaval, torcer por seu time de futebol e manter acesa a utopia de que a vida é bela e que amanhã pode ser melhor.
5. O medo é inerente à vida porque “viver é perigoso” e sempre comporta riscos. Estes nos obrigam a mudar e reforçam a esperança. O que o povo mais quer, não as elites, é mudar para que a felicidade e o amor não sejam tão difíceis.
6. O oposto ao medo não é a coragem. É a fé de que as coisas podem ser diferentes e que, organizados, podemos avançar. O Brasil mostrou que não é apenas bom no carnaval e no futebol. Mas também bom na agricultura, na arquitetura, na música e na sua inesgotável alegria de viver.
7. O povo brasileiro é religioso e místico. Mais que pensar em Deus, ele sente Deus em seu cotidiano que se revela nas expressões: “graças a Deus”, “Deus lhe pague”, “fique com Deus”. Deus para ele não é um problema, mas a solução de seus problemas. Sente-se amparado por santos e santas e por bons espíritos e orixás que ancoram sua vida no meio do sofrimento.
8. Uma das características da cultura brasileira é a alegria e o sentido de humor, que ajudam  aliviar as contradições  sociais. Essa alegria nasce da convicção de que a vida vale mais do que qualquer coisa. Por isso deve ser celebrada com festa e diante do fracasso, manter o humor. O efeito é a leveza  e o entusiasmo que tantos admiram em nós.
9. Há um casamento que ainda não foi feito no Brasil: entre o saber acadêmico e o saber popular. O saber popular nasce da experiência sofrida, dos mil jeitos de sobreviver com poucos recursos. O saber acadêmico nasce do estudo, bebendo de muitas fontes. Quando esses dois saberes se unirem, seremos invencíveis.
10. O cuidado pertence à essência de toda a vida. Sem o cuidado ela adoece e morre. Com cuidado, é protegida e dura mais. O desafio hoje é entender a política como cuidado do Brasil, de sua gente, da natureza, da educação, da saúde, da justiça. Esse cuidado é a prova de que amamos  o nosso pais.
11.Uma das marcas do povo brasileiro é sua capacidade de se relacionar com todo mundo, de somar, juntar, sincretizar e sintetizar. Por isso, ele não é intolerante nem dogmático. Gosta e acolhe bem os estrangeiros. Ora, esses valores são  fundamentais para uma globalização de rosto humano. Estamos mostrando que ela é possível e a estamos construindo.
12. O Brasil é a maior nação neolatina do mundo. Temos tudo para sermos  também a maior civilização dos trópicos, não imperial, mas solidária com todas as nações, porque incorporou em si representantes de 60 povos que para aqui vieram. Nosso desafio é mostrar que o Brasil pode ser, de fato, um pedaço do paraíso que não se perdeu.


De noite, no Lava Piés

Por Elaine Tavares  - jornalista

Madri, quatro milhões de habitantes, duas horas da manhã. A vida ainda está pulsando, as pessoas saem dos bares, andam pelas ruas, tranquilas. Também eu sigo em direção a casa, em uma boa conversa com as companheiras espanholas. Estamos no Bairro Lava Piés, um dos espaços onde se concentram os latinos, africanos e migrantes de outras terras. No dizer de alguns locais “um lugar perigoso”. Mas, para quem conhece bem as coisas e sabe que a pobreza não é sinônimo de crime, não passa de ideologia. Por isso também se vê muitos espanhóis andando por ali e há bastante fraternidade.

É fácil perceber como o sistema concebe a presença dos imigrantes. Por toda a parte estão as viaturas policiais e, a cada tanto, seus ocupantes fazem a “redada” que é a vistoria por papéis. Como durante a noite os jovens saem a passear e a tomar uma bebida, os grupos de negros, latinos e marroquinos se convertem em boas presas.

Desgraçadamente topamos com uma dessas. Um grupo de negros conversava em uma praça quando chegaram os policiais. São bastante intimidantes, pois chegam em bando. Vai daí que começou uma certa confusão pois um dos jovens ou não tinha os papéis ou não aceitou aquele tipo de intervenção. De longe, ouvíamos a voz que gritava, indignada. Era um negro grande, encorpado, e falava um português de Portugal, o que me levou a crer que vinha de algum país da África. A coisa se arrastou e depois de alguns minutos lá vieram os policiais na direção das viaturas, já com o homem algemado. Ele seguia argumentando, rebelde, questionando a ação policial. Os demais acompanhavam, também argumentando.

Ali ficamos as três, impotentes. “Isso acontece a toda hora. Quando tem mais gente, as pessoas se juntam e impedem as prisões. Mas tem momentos assim, que ficamos sem forças”. O grande número de migrantes tem se convertido em um “problema” para o governo e para alguns que argumentam que essa gente que vem de fora lhes rouba o pouco de trabalho que ainda tem. Mas, no geral, o que se vê é um sentimento de solidariedade. De qualquer forma, os bairros onde se concentram os migrantes são sempre os mais visados pela polícia e a qualquer momento as pessoas podem ser revistadas com a exigência de papéis. Caso não os tenha são presas e deportadas.

Entre os espanhóis que lutam pelo direito dos migrantes de permanecer no país há os que o fazem por sentimento de humanidade, por solidariedade concreta. Mas também há os que têm muita clareza sobre o papel que Espanha teve na desgraça dos países de origem de toda essa gente. Um exemplo mais contemporâneo é o da gente do Marrocos e da região do Saharauí  que esteve nas mãos dos governos espanhóis até bem pouco tempo. 
De fato, ali, na madrugada fria de Madri, o que parece ficar claro a quem circula pelas ruas do bairro Lava Pies é que ali não existem “migrantes”. As conhecidas caras latinas, negras e árabes que tornam tudo tão familiar estão, de certa forma, em casa. Pois, afinal, esses povos estavam cuidando de suas vidas quando foram invadidos e dominados. Agora, querem direito de poder transitar pelos caminhos do vencedor que, à força, os fez partilhar de sua cultura e modo de vida.

Talvez a Europa devesse estudar mais a sua própria história para saber que toda essa gente que hoje alguns chamam de “ilegais” nada mais são do que irmãos, filhos da mesma pátria e da mesma violência. Quando se acabou o tempo colonial pela força da luta das gentes, os países se independizaram, mas o estrago causado pelos países colonizadores foi grande demais. Agora, haveria de aguentar as consequências. O sistema capitalista inventado desde a Europa criou seus centros e periferias e hoje se autodenomina como um sistema-mundo. Pois bem, se é assim, se o sistema pode ser mundial e as mercadorias podem andar livremente entre as fronteiras nacionais, assim também as gentes. Dessa forma, não existem ilegais.

Mas, claro, isso é sonho e a realidade concreta é que nas ruas de Espanha os imigrantes pobres seguem sendo acossados. Já os que chegam para jogar no Barcelona ou no Real Madri, ou ainda os que aportam em jatos ou navios de luxos, esses são bem vindos e nunca importunados. Afinal, o dinheiro sempre pode ser um bom documento em qualquer lugar.




Existe vida no Jornalismo
Blog da Elaine:
www.eteia.blogspot.com
América Latina Livre - www.iela.ufsc.br
Desacato - www.desacato.info
Pobres & Nojentas - www.pobresenojentas.blogspot.com
Agencia Contestado de Noticias Populares - www.agecon.org.br

TOCOPILLA

(Excerto do livro “Viagem ao Umbigo do Mundo”, publicado em 2006)


Naquele lugar havia um encontro impressionante: o deserto e o oceano! Por muitas horas, no dia seguinte, eu poderia observar tal encontro – naquele momento e naquele lugar ficava mais difícil de ver, porque a pequena cidade de Tocopilla roubava a cena, fazia com que a gente concentrasse as atenções nela.
                                   Bem, se estamos num deserto totalmente seco, sem a menor fertilidade, para que haja vida, gente, cidade, é necessário que haja água, e se há água, a coisa acaba virando oásis. Tanto a cidade de Tocopilla, quanto São Pedro de Atacama e as demais cidades que veríamos nos dias seguintes existiam porque havia um oásis, se bem que até agora acho que o oásis onde existia Tocopilla fora criado pela mão do homem – pelo menos me contaram lá que a água doce ali existente era canalizada desde uma distância de 150 quilômetros. Nesse soberbo continente onde vivemos tudo é possível, e então não duvidei nada quando me contaram tal coisa. Na verdade, era necessário que aquela cidade existisse, ali – por que o homem não teria ido buscar água doce a 150 quilômetros para fazer um oásis, já que a natureza, ali, fornecia um dos raros portos da costa rochosa do Norte do Chile? O porto era necessário – não passáramos mais para trás pela mina imensa, onde havia uma estrada de ferro inteira, só para carregar o minério de cobre quase que inexaurível? Quando passáramos pela mina eu não pensara aonde aquela estrada de ferro poderia ir, para descarregar todo aquele minério. Agora a coisa estava na minha frente: alinhados no porto, os navios esperavam de goela aberta para levar embora todo aquele minério Pacífico afora, para ser fundido e industrializado lá do outro lado do mar – pelas minhas contas, nos Estados Unidos ou talvez em outros países onde o Capital  pudesse explorar com tranquilidade a mão de obra barata. Não fica minério nenhum para o Chile industrializar no seu próprio solo, gerar riqueza para si próprio, gerar empregos. Os empregos gerados por aquela abundante loucura de cobre são apenas os da mão de obra barata, o das pessoas que trabalham por qualquer salário porque precisam comer, os extrativistas que carregam os trens e os navios. Claro, há alguns engenheiros e chefes, que estão mais para cima na pirâmide social, mas que devem representar um percentual mínimo na totalidade da população. A história é quase sempre a mesma.                              
                                   Mas então já era fim da tarde, e descemos a encosta da última elevação antes de nos dirigirmos para Tocopilla, e a pequena cidade estava ali, toda bonitinha, com ajardinamento e palmeiras nas ruas, embora ao seu redor, tirando o lado que era o mar, só houvesse a secura das montanhas coloridas do deserto. O porto dava na vista, e sobranceiro a ele, numa encosta, estavam lá as casas dos ingleses que um dia foram os donos da América, naquele período intermediário entre o tempo em que a América pertencia aos portugueses e espanhóis e o período atual, quando ela pertence aos Estados Unidos. Tinham vivido bem os ingleses, nas suas casas avarandadas e com belíssimas vistas, assim lá no alto! Era inconfundível sua arquitetura, e eu cheguei a vê-los na minha imaginação, de ternos brancos e chapéus Panamá, rodando suas bengalas de castão de prata ali pelas ruas próximas do porto! Não reparem, é coisa de escritora.
                                   O que não era coisa de escritora nem de imaginação eram os grandes canhões na montanha sobranceira ao porto, e achei que estavam ali talvez por causa da comprida briga de Chile e Argentina pelo Canal de Beagle ou talvez pela necessidade dos donos do minério e do porto defenderem bem aquelas preciosidades. Mais tarde, ao jantar, levantei o assunto, e foi o PHD Osmar quem  me desiludiu: aqueles canhões eram coisa do  passado; as armas de hoje eram muito mais modernas e eficientes. Pensei, então, que talvez aquela montanha escondesse alguns mísseis. Por que não?
                                   Nossa comitiva entrou na cidade pequena e fez breve reconhecimento por ela, chamando todas as atenções – apesar de naquele dia termos viajado de camisetas, por ser quente e por estarmos à baixa altitude, todos usávamos os capacetes negros que nos tornavam como que seres extraterrestres, e aquelas poderosas máquinas seguidas do carro de apoio formavam um cortejo deveras impressionante. Mas ali era uma cidade acostumada a trens e a navios, e não houve aquela curiosidade que despertáramos em Susques, quando penetráramos na cidadezinha ao pôr do sol e fizéramos parar as criancinhas que saíam da escola.
                                   Nessa noite, ficamos num hotel bastante humilde, que era o melhor que os nossos guias acharam em Tocopilla. Ainda era bem cedo, e enquanto os motociclistas cuidavam das grandes máquinas negras, fiz o de sempre: tomei meu banho e parti à caça da Internet, que é sempre tão facilmente achável nos países hispânicos. Já fazia uns dois dias que os companheiros falavam nos locos, moluscos especialíssimos que só eram encontrados em Tocopilla.
-                    Mas o que tem de tão especial os tais locos? – lembro-me de ter perguntado, ainda em São Pedro de Atacama.
-                    Ah! Dona Urda, só experimentando para entender! – dissera-me sonhadoramente o seu Chico.
Aquilo só me deixara mais curiosa para conhecer os tais de locos, e tão logo fiz a minha parte na Internet, corri de volta ao hotel para ver o que os companheiros estavam fazendo.
                                               Eu sempre demorava uma hora ou duas na Internet, tempo suficiente para que, quando voltasse, todas as motos já estivessem guardadas e todo o mundo estivesse já de banho tomado, querendo sair atrás de comida. Naquela noite, ao voltar ao hotel, o grande assunto eram os locos.
                                   Há que se lembrar que Tocopilla é uma cidade pequena e que aquela era uma trivial noite de meio da semana, o que significava pouca variedade de lugares abertos para se comer. Alguém nos disse que se queríamos locos era melhor ir diretamente o Mercado Municipal, que lá, com certeza, os haveria. Aquilo não era o tipo de restaurante que agradasse muito aos meus amigos, no entanto – pesquisaram um pouco mais e souberam que havia um outro lugar aberto, um certo clube que seria mais sofisticado. Como nenhum de nós sabia direito onde era, achamos por bem pegarmos táxis. E amontoadas em táxis nos dirigimos ao tal clube, que, como a maioria dos outros lugares, estava fechado. Foi só ir e voltar de táxi, mas aquela pequena viagem deixou-me uma informação inesquecível. Um dos companheiros levantou com o motorista a história de que por ali nunca chovia, e o taxista, um homem de uns 60 anos, disse que uma vez, quando ele era criança, ali na beira do mar havia chovido.
-         E então, como é que foi? – quisemos saber, e é a resposta do taxista que achei interessantíssima, e que até hoje considero uma informação ímpar:
- Foi horrível! Havia água para todos os lados!- e o taxista como que se encolhia, como que se arrepiava ao lembrar de coisa tão traumática vista uma única vez na sua já comprida vida! Fica meio complicado para nós, gente que vê chuva a vida inteira, entender a vida daquelas gentes do deserto, mesmo num oásis à beira-mar, como ali em Tocopilla! Há que se dizer que, apesar de as casas inglesas sobranceiras ao porto terem seus telhados vermelhos como os da Inglaterra, as casas dos outros moradores tinham ou aquela cobertura típica do deserto, de palha com uma camada superior de terra, ou muitas vezes não tinham cobertura nenhuma[1][1], como uma vez eu já pudera observar na cidade de Lima, Peru. Um aguaceiro que fosse num lugar daqueles deveria, mesmo, fazer um estrago danado! Acho que nunca vou me esquecer daquele taxista já adentrado nos anos e da sua angústia ao lembrar da única chuva que vira na sua vida, talvez meio século antes!                              
                                                          

                                   Urda Alice Klueger
                                   Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR


[1][1] São casas apenas com as paredes, janelas e portas, mesmo, inteiramente sem telhado, a céu aberto. (Nota da autora)

ShareThis

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...