dimanche 1 janvier 2012

Saravá, meu pai!

Por Vicência Jaguaribe



30 de dezembro de 2011 (sexta-feira)
Véspera da passagem do ano


Hoje amanheci com vontade de fazer alguma coisa para exorcizar os maus fluidos do apartamento. Fazer um trabalho de descarrego no ambiente, em meu próprio corpo e em minha alma. Não, não sou adepta da Umbanda, da Quimbanda, do Candomblé, do Batuque, do Xambá, do Xangô ou de qualquer outra crença afro-brasileira. Também não sou seguidora do Espiritismo nem iniciada em alguma prática esotérica. Acontece que sou brasileira (apesar de não saber muito bem o que vem a ser isso, mesmo depois de haver lido, emocionada, o Viva o Povo Brasileiro, do baiano João Ubaldo Ribeiro) sou brasileira descendente de muitas gerações de brasileiros e, como boa brasileira, recorro a qualquer ritual, pagão ou cristão, quando a coisa aperta e nada mais pode ser feito dentro dos limites da ciência, do racionalismo e da lógica. Por isso é que diz a sabedoria popular: Para quem está perdido, todo o mato é vereda.
Pois bem, queimei palitos de incenso de alfazema, made in Índia, fragrância usada para descarrego, o processo por meio do qual nos livramos de um mal, como má sorte, perseguições e doenças. Acendi as velas que deveria ter queimado no Natal, mas não o fiz, e liguei a luz em forma de vela do santuário.
Para deixar a coisa mais clara para o leitor, preciso dizer que este 2011 foi terrível para minha família. Não é à toa que ele termina por um número ímpar — 11. Não gosto de número ímpar. Habitualmente compro qualquer produto em números pares: 4 pães, 2 litros de leite, 6 caixas de sabão em pó, etc. Só compro em número ímpar (1) objetos que normalmente não são comprados, por motivos óbvios, em mais de uma unidade, como geladeira, fogão, mesa, computador, etc. Pois é, só gosto de números redondos, números que se fecham em volta de nós, sem deixar arestas e brechas por onde possam entrar os maus fluidos.
Do que dizem os iniciados nas ciências ocultas, infere-se — e essa é uma inferência particularmente minha que o número 11 é contraditório. E a contradição não faz bem ao espírito, porque pressupõe falta de nexo ou de lógica, incoerência e discrepância. De acordo com esses iniciados, o 11 é O número das revelações. O plano de conhecimentos mais elevados. A junção de Deus (1) com o mundo (10): é o sinal do início do conhecimento de Deus, isto é, da admissão à vida superior dos céus. Mas é também o Símbolo da transição, excesso e perigo. Número da fragmentação, sendo por isso também considerado diabólico. Veja-se o endereço eletrônico http://pensamentosocasionais.blogspot.com/2004/04/simbologia-do-1.html.
Pois, para definir o ano de 2011, tal qual o vivemos eu e minha família, devo ater-me ao final da transcrição: “Símbolo da transição, excesso e perigo. Número da fragmentação, sendo por isso também considerado diabólico”. Tivemos, na família, doenças graves, mortes e outros problemas muito penosos. E, principalmente, a morte de uma tia muito querida, a quem chamava de mãe.
Assim, acendi todas as velas que encontrei no apartamento e deixei fumaçar o incenso a manhã inteira. Oxalá essa prática possa tirar do nosso espaço e de todos os outros espaços os miasmas das doenças e os fluidos do mal, que nos cercam durante os 365 dias e 6 horas do ano, seus 12 meses; os 30 dias de cada mês, as 24 horas do dia, os 60 minutos de cada hora, e os sessenta segundos de cada minuto. Saravá, meu pai!
O próximo ano que começará deste exato momento em que termino esta crônica a 36 horas ostenta um belo número redondo: 2012. Qualquer que seja o movimento que se faça em seus algarismos, menos alguns poucos (01, 21, 201, 1201), dará sempre um número par. Vejam: 02, 10, 20, 22, 102, 122, 202, 212, 220, 1220, 2210.
 Segundo os entendidos na numerologia, os mistérios do doze dizem respeito às relações entre o abstrato e o concreto, entre a Trindade e o mundo material. Simboliza esse número a manifestação do espiritual sobre o material: Tudo aquilo que diz respeito à manifestação do espiritual sobre o material no sentido de comunicação e de ensinamentos obedece ao mistério doze: Jesus escolheu 12 apóstolos; são 12 as casas do Zodíaco; são quatro as estações do ano, cada uma com a duração de 3 meses (4x3= 12); são doze os meses do ano; Jacó teve 12 filhos, dos quais se formaram as 12 tribos de Israel; após o milagre da multiplicação dos pães por Jesus, as sobras encheram 12 cestos; o dia é dividido em 12 horas, assim como a noite. Esses são somente alguns exemplos para mostrar que o 12 é “um número glorioso”. O leitor poderá encontrar mais exemplos no seguinte endereço virtual:  http://www.joselaerciodoegito.com.br/site_tema392.htm.
Assim, prezado leitor, só nos resta, no início de 2012, torcer para que o 12 honre sua fama de “número glorioso”. Mas, por via das dúvidas, recebamos o Ano Novo, com variadas saudações: Paz e amor; Paz e bem; Damastê; Shalom; Namaskar; Namaste; Assalamu Alaiku

TERRANOVA

Fotomontagem de Madhu Maretiore

Outro paradigma: escutar a natureza

Leonardo Boff
Teólogo/Filósofo
                                    

Agora que se aproximam  grandes chuvas, inundações, temporais, furacões e deslizamentos de encostas temos que reaprender a escutar a natureza. Toda nossa cultura ocidental, de vertente grega, está assentada sobre o ver. Não é sem razão que a categoria central – idéia – (eidos em grego) significa visão. A tele-visão é sua expressão maior. Temos desenvolvido até os últimos limites a nossa visão. Penetramos com os telescópios de grande potência até a profundidade do universo para ver as galáxias mais distantes. Descemos às derradeiras partículas elementares e ao mistério íntimo da vida. O olhar é tudo para nós. Mas devemos tomar consciência de que esse é o modo de ser do homem ocidental e não de todos.
Outras culturas, como as próximas a nós, as andinas (dos quéchuas e aimaras e outras) se estruturam ao redor do escutar. Logicamente eles também veem. Mas sua singularidade é escutar as mensagens daquilo que veem. O camponês do antiplano da Bolívia me diz: “eu escuto a natureza, eu  sei o que a montanha me diz”. Falando com um  xamã, ele me testemunha: “eu escuto a Pachamama e sei o que ela está me comunicando”. Tudo fala: as estrelas, o sol, a lua, as montanhas soberbas, os lagos serenos, os vales profundos, as nuvens fugidias, as florestas, os pássaros e os animais. As pessoas aprendem a escutar atentamente estas vozes. Livros não são importantes para eles porque são mudos, ao passo que a natureza está cheia de vozes. E eles se especializaram de tal forma nesta escuta que sabem, ao ver as nuvens, ao escutar os ventos,  ao observar as lhamas ou os movimentos das formigas o que vai ocorrer na natureza.
Isso me faz lembrar uma antiga tradição teológica elaborada por Santo Agostinho e sistematizada por São Boaventura na Idade Media: a revelação divina primeira é a voz da natureza, o verdadeiro livro falante de Deus. Pelo fato de termos perdido a capacidade de ouvir, Deus, por piedade, nos deu um segundo livro que é a Bíblia para que, escutando seus conteúdos, pudéssemos ouvir novamente o que a natureza nos diz.
Quando Francisco Pizarro em 1532 em Cajamarca, mediante uma cilada traiçoeira, aprisionou o chefe inca Atahualpa, ordenou ao frade dominicano Vicente Valverde que com seu intérprete Felipillo lhe lesse o requerimento,um texto em latim pelo qual deviam se deixar batizar e se submeter aos soberanos espanhóis, pois  o Papa assim o dispusera. Caso contrário poderiam ser escravizados por desobediência. O inca lhe perguntou donde vinha esta autoridade.  Valverde entregou-lhe o livro da Bíblia. Atahaualpa pegou-o e colocou ao ouvido. Como não tivesse escutado nada jogou a Bíblia ao chão. Foi o sinal para que Pizarro massacrasse toda a guarda real e aprisionasse o soberano inca. Como se vê, a escuta era tudo para Atahualpa. O livro da Bíblia não falava nada.
Para a cultura andina tudo se estrutura dentro de uma teia de relações vivas, carregadas de sentido e de mensagens.  Percebem o fio que tudo penetra, unifica e dá significação. Nós ocidentais vemos as árvores mas não percebemos a floresta. As coisas estão isoladas umas das outras. São mudas. A fala é só nossa. Captamos as coisas fora do conjunto das relações. Por isso nossa linguagem é formal e fria. Nela temos elaborado nossas filosofias, teologias, doutrinas, ciências  e dogmas. Mas esse é o nosso jeito de sentir o mundo. E não é de todos os povos.
Os andinos nos ajudam a relativizar nosso pretenso “universalismo”. Podemos expressar as mensagens por outras formas relacionais e includentes e não por aquelas objetivísticas e mudas a que estamos acostumados. Eles nos desafiam a escutar as mensagens que nos vem de todos os lados.

Nos dias atuais devemos escutar o que as nuvens negras, as florestas das encostas, os rios que rompem barreiras, as encostas abruptas, as rochas soltas nos advertem. As ciências na natureza nos ajudam nesta escuta. Mas não é o nosso hábito cultural captar as advertências daquilo que vemos. E então nossa surdez nos faz vitimas de desastres lastimáveis. Só dominamos a natureza, obedecendo-a, quer dizer, escutando o que ela nos quer ensinar. A surdez nos dará amargas lições.

Veja meu livro O Casamento do Céu com a Terra: mitos ecológicos indígenas, Moderna, São Paulo 2004.

ABRE UM NOVO CENÁRIO

MOR

Logo no despontar
No minuto primeiro.
Os foguetes a pipocar
Desponta novo janeiro.

Radiante com todo o brilho
Com a bela faixa o menino.
Como sendo o primero filho
A marcar novo destino.

Com o cetro da esperança
Desfila todo garboso.
A mostrar sua confiança
Que momento suntuoso.

A trazer a felicidade
Sua marca de amor.
Para a perenidade
Com toque grande ardor.



São José/SC, 1 de janeiro de 2.012.

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