mardi 4 décembre 2012

Crônica da Urda


HISTÓRIAS DA MINHA AVÓ – III




                                   Já contei outro dia que a minha avó, antes dos sete anos de idade, fugiu com sua família de uma aldeia da sua Lituânia natal e foi parar no porto de Hamburgo, na Alemanha. Lá decidiram os adultos que viriam para o Brasil, e num belo dia (não tenho a menor idéia se o dia estava belo mesmo, minha avó nunca contou), eles embarcaram num navio, a caminho da América.
                                   Como teria sido essa viagem? Não deve ter sido muito fácil para os adultos, mas para uma criança que ainda não fizera sete anos, ela foi muito interessante, e minha avó contava os episódios de que se lembrava, no maior entusiasmo, mesmo sessenta anos depois.
                                   A primeira parada do navio foi em Lisboa. Aldeões lituano pobres, com certeza eles eram toscos e tacanhos e se vestiam de forma estranha, mas tiveram a ventura de saltar em terra e passear na cidade de onde vieram os “descobridores” do Brasil. Eu conheço Lisboa, e é ela de uma grande beleza e doçura hoje – não deveria ser muito diferente há pouco mais de um século. Nossos lituanos devem ter se embevecido com aquele primeiro contacto com uma cultura latina, um primeiro tênue elo com o Brasil que estava por vir, onde iriam viver o resto das suas vidas. Tento imaginar o que pensaram os adultos, mas SEI o que fascinou minha avó em Lisboa: uma estátua numa praça. Era a estátua de um menino nu, que fazia xixi sem parar dentro de um tanque de mármore. Poucos anos antes de morrer ela lembrava com extrema nitidez dessa praça com seu menino e seu jorro de água eterno, que fez com que ela jamais esquecesse Lisboa.
                                   Depois, veio o mar, o grande mar-oceano. Nunca nos contou se viajavam num veleiro ou num moderno navio a vapor, mas como sabia nos contar daqueles três meses em que só havia “céu e mar”! Foram três meses sem avistarem nenhum pedacinho de terra, e eu, criança, ficava tentando entender o que era ficar três meses vendo só “céu e mar”. Três meses é um tempão para uma criança, ficava difícil para mim entender aquele tempo todo sem se chegar a lugar algum.
                                   Chegaram, um dia, à cidade do Rio de Janeiro. Deram azar: grassava uma peste na cidade, nenhum navio podia aportar. Mantiveram-se ao largo, mas ela tinha uma lembrança linda do que vira no Rio de Janeiro: palmeiras agitando-se ao vento. Não me parece que o Rio de Janeiro tenha tantas palmeiras assim; talvez eles tenham visto umas poucas, mas o exotismo daquelas plantas que viam pela primeira vez tomou conta da cena, e, para minha avó, o Rio de Janeiro ficou, para sempre, sendo uma cidade de muitas palmeiras.
                                   Sem terem podido aportar no Rio, seguiram para o Sul. Tiveram breve parada no porto de Santos, mas isso parece não ter impressionado a menina que depois foi minha avó. E um dia vieram bater no litoral de Santa Catarina. Pelo que ela contava tantos anos depois, eu acredito que saltaram em terras catarinenses na Praia de Cabeçudas (Itajaí/SC).
Já estava para despontar o século XX, e os meus antepassados lituanos foram encaminhados para os confins do então já próspero município de Blumenau, e perdoem se erro na Geografia, mas creio que foi para o lugar onde hoje é o município de Rio dos Cedros. Sei que no lugar onde eles viveram os seus primeiros anos de Brasil, hoje existe a represa da Usina Palmeiras, local hoje muito aprazível, que tenho visto em fotografias tiradas pelos meus amigos campistas, que costumam armar suas barracas às margens do grande lago da represa. Não ficaram lá por muito tempo, mas foi um tempo duro, de privações e de constante pavor dos vizinhos índios, naquela época em pleno pé de guerra com o invasor branco das suas terras, em plena época em que tinha sido institucionalizado o genocídio no Vale do Itajaí. Que foi duro eu tenho certeza, pois ela própria é quem contava, mas quantos episódios bonitos e cheios de poesia que aconteceram no meio da mata inóspita pela qual haviam trocado a Lituânia!
                                   Minha avó viveu muitas aventuras, mas creio que as mais fortes, para ela, foram exatamente as que aconteceram dentro da Floresta Atlântica brasileira. Contava-nos com grande brilho, nas tardes e noites da minha infância, e penso em contá-las para vocês numa próxima vez.


(Escrito em 23 de Junho de 1996)  

Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR 

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