samedi 8 décembre 2012

CACHORRÃO


UM TEXTO DEDICADO A UM AMIGO QUE MORREU HÁ POUCOS DIAS.
EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

Ouvindo “Trenzinho Caipira”, de Heitor Villa Lobos
Em memória de J. Pingo (Campos Velho), companheiro das lutas estudantis na década de 60 (Porto Alegre), e dos embates culturais nos anos 80 e 90 (Brasília)

“Como é importante o trabalho do poeta! Ele resgata todas as coisas da destruição e confere ao homem a imortalidade.”
(Lucano, em “Farsalia”)

Morde o teu calcanhar
avanças  com dificuldade
sombrio, feio, enorme – quer te levar ao barco que atravessará o rio e
te  levará ao Hades – o Cachorrão
tentas correr, tropeças, sangras
súplicas  não adiantam
nem  a mais bela palavra
lá  está –sempre – o Cachorrão
menino –  já o vias, mas não sabias quem ele era
anti- Ulisses, não voltarás ao Lar,
Ofegante, trôpego, doído, sangrando por ruas estranhas,
relês  Kafka,
visitas o túmulo dos teu pais
está tudo seco – como o teu coração
já não consegues chorar
apelas para uma prece, mas ela fica entalada na tua garganta
 choro engasgado
 Cachorrão à espreita – sempre,
 menino longe de sua mãe,
contemplas as cinzas do Purgatório
– sim, o velho Purgatório das aulas de catequese –
 culpa ancestral
que  a tudo antecede,
soprada por algum vento
séculos, milênios
e ela lá: a Culpa – e o Cachorrão conhece o ponto fraco (o teu e de todos)
tentas te salvar pela literatura
apenas morremos
Lá atrás, recebeste os Sacramentos – assim queres partir
unindo as duas pontas: o menino e o seu outro
o boné do garoto na boina do ancião
(imanência do passado no presente)
e exorcizas todos os males
pela 11º vez assistes a “Rastros de Ódio” (“The Searchers”, 1956), de John Ford – obra homérica
que  (também) fala da tragédia do homem sem lar
sim,  há filmes maiores que a vida, como este
nada salva nada?
Deus não morreu e nada é permitido
no túmulo dos teus pais, olhas para cima,
Deus Te esqueceu?
Reaparecerá?
Não –  não há oblívio para Ele
algo ficará – o que virá depois de tudo estar consumado?
o sacrifício não pode ter sido em vão
mas quem saberá?
Trovões, e o Cachorrão chegando mais perto – cada vez mais
já te alcançou
não,  nunca desistes
É tua sina, estoicismo, bravura?
morte embutida desde os primórdios,
a Salvação existe
“a remissão dos pecados começa na rua” – alguém berra
e te lembras do “Divino Labirinto dos Sonhos”, de que falava Borges  
– é tudo agora – a eternidade é aqui –
o fim do mundo é depois de amanhã
sim, ave celebrante: cada dia, este sol, o pássaro cantando no dia recém- fundado
“Lá vai ciranda e destino”
esta pequena e precária vida – sim, pequena e precária – ainda assim, maior que o Cachorrão – Sempre.

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