jeudi 22 novembre 2012

OH MY GOD e O MANTO DE VEGA


Nestes dois primeiros romances do gênero, agora publicados em um único volume, "OH, MY GOD! e "O MANTO DE VEGA", é fácil perceber o bom humor com que o autor pauta sua indignação com a crença de que o homem é a obra prima do criador.
As aventuras espaciais estonteantes e um universo de seres além da imaginação povoam as duas obras que nada deixam a desejar na visão catastrófica que os magos, os bruxos e os esotéricos têm do futuro da humanidade. É, nessa linha, que o autor constrói personagens ousados, decididos e heroicos que ousam enfrentar a imensidão do universo e contestar bravamente as versões simplórias que se colocam sobre ele.
O que você faria se num belo dia de agosto o mundo acabasse, e só a sua cidade fosse salva, porque foi lançada ao espaço, com toda a sua população, antes do evento apocalíptico que dizimou todos os seres humanos? Como você se sentiria fazendo uma viagem espacial de 25 bilhões de anos luz e de repente deparasse com uma criatura extraterrestre que diz ser o seu criador? 
OH, MY GOD! é a história de um homem obcecado pela vida extraterrestre e desiludido com a vida terráquea. Uma fábula sobre um ser humano que de tanto buscar Deus na terra e não conseguir achá-lo,encontrou-o no espaço cósmico e mudou completamente sua vida e o destino de toda a humanidade. Nessa epopeia espacial desvenda o universo e suas criaturas fantásticas, descritas de forma extravagante e romântica.


Enfim, desde que a escrita se firmou, com ela vieram previsões de desgraças, tragédias inimagináveis e como consolo para isso tudo, o fim do mundo. Não que isso não possa acontecer, porque os dançarinos do universo podem a qualquer hora escolher a terra para dançar.
Com o livro o Manto de Vega, Luiz Pieri resolve retornar a fantasia dos contos espaciais que tanto animaram a sua infância e adolescência. Só que esta fantasia, nos tempos atuais, vem permeada de previsões possíveis de se tornarem realidade. Não está longe o dia em que o homem terá que construir espaçonaves gigantescas como a Pioneer B-3 desta história, para encontrar novo abrigo para a raça humana. Também não deve estar longe o dia em que o homem encontrará um referencial no espaço sideral ou fora dele, para calar de vez sua arrogância e prepotência. O Manto de Vega trata destes dois temas: salvar a humanidade e encontrar nossos ascendentes cósmicos. E é nesse clima de medo e incerteza que os seres humanos se preparam para a sua maior epopeia: o lançamento de uma nave espacial tripulada até Europa, uma das luas do Planeta Júpiter, na qual já se constatou a existência de oxigênio e água, sem saber que até mesmo em nosso sistema solar existem coisas que nossa vã filosofia sequer pode imaginar, coisas como as bactérias que formaram um sinistro manto sobre Europa, uma das luas de Júpiter. Seres tenebrosos, vindos do longínquo sistema Vega, horríveis de aparência, ferozes no comportamento, mas com uma missão divina: garantir a existência do universo. Nesta seqüência de “Oh, My God”, Luiz Paulo Pieri produz uma estonteante aventura espacial que começa com a necessidade do ser humano buscar na distante lua jupteriana uma arma capaz de salvar a Via Láctea e, por extensão, todo o universo conhecido.
Esta é a história de uma saga espacial, repleta de aventuras e de momentos de tensão e medo, de terror diante do desconhecido, de esperanças diante do inusitado, mas também de bravura de gente ousada que resolveu desafiar todas as previsões e buscar, na longínqua e insalubre lua Europa, uma esperança para a raça humana. É a história de intrépidos terráqueos que acreditaram na causa maior que é a harmonia dos povos da Terra, para juntos combaterem o terror que se aproxima, indo, sem saber, por espaços nunca dantes navegados, em busca da salvação de todos os seus semelhantes.



Reflexões sobre “OH, MY GOD!”
Emanuel Tadeu Medeiros Vieira

“Vim ao mundo com um espírito indomável de mudanças e de  fazer transformações.”
(Palavras de Arthuro, personagem central do livro)

Um homem nada é sem memória. Muito menos uma Nação.
Lembro da advertência de Thomas Mann, em “José e seus irmãos”: “É muito fundo o poço do passado.” E William Faulkner reforça: “O passado não está morto. Ele nem sequer passou.”
“Oh, My God!”, além de outros aspectos relevantes, é uma história de busca. Falava-se antigamente dos “romances de formação”: eram histórias de crescimento, jovens tentando firmarem-se na dura aventura de viver.
No geral, os jovens lutam intensamente, querendo vidas diferentes, buscando fugir da pastosa rotina, do destino banal  e comum, a que a vida os destinava.
Estes seres almejavam uma vida diferente. Esforçavam-se penosamente para obterem a adequação entre Ser e Destino, como ocorria com os nobres personagens de Homero.
Arthuro, o personagem central e narrador do livro de Luiz Paulo Pieri, empreende esta busca.
Ele mesmo confessa: “Sonhava buscar novos horizontes.”
Os seres humanos, em sua peregrinação pela terra, fazem essa busca. (falo dos seres que não se acomodam.)
Esta travessia é crescimento. É ato de coragem: nunca se sabe o final do caminho.
Estas almas inquietas têm consciência que o MAIS IMPORTANTE É PEGAR NA FLECHA. ACERTAR NO ALVO É CONSEQUÊNCIA.  Os caminhos estão aí para serem andados.
Arthuro também poderia repetir um princípio que animou os  sonhos de minha geração: juventude sem rebeldia é servidão precoce.
Esta procura está claramente explicitada numa das epígrafes escolhidas pelo autor: “Nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde os outros foram”. São palavras de um grande inventor, a quem a humanidade tanto deve: Alexandre Graham Bell.
Arthuro se indaga constantemente: “Como posso permanecer a mesma pessoa se mudo constantemente?, inquieta-se.
O livro poderia ser qualificado de “obra de indagação” ou “romance memorialístico”, mas a designação do gênero importa pouco. No entanto, o que vale mais na obra é a reflexão propriamente dita que o personagem faz dos valores morais, religiosos e das concepções que o ser humano tem das coisas fantásticas.
No primeiro momento, o leitor constatará: é ficção científica. Também. Basicamente. Mas não só isso.
O personagem indaga: só nascemos, crescemos e morremos?
No fundo, ele quer mais. Aspira deixar algo além da poeira do tempo. (E a arte vence o tempo. Começamos escrevendo para viver e acabamos escrevendo para não morrer...)
Já na pré-adolescência, Arthuro confessava-se um fã da ficção científica. “Vivia sonhando com seres extraterrestres e vida em abundância espalhada por bilhões de planetas da Via Láctea e do restante do universo.”
Muito jovem, o personagem escreve um livro com ilustrativo título: “Em Busca de Deus”.
Ele tem paixão por autores célebres do gênero, como Isaac Asimov.
A súmula ou o eixo-central filosófico do livro pode estar neste trecho: “Não concebia, nem imaginava um universo tão grande, imensurável, para um punhadinho de homens idiotas desfrutarem sozinhos de sua magnitude.”
O que ele procura? Vida inteligente no universo, além da nossa. Vida inteligente? Sim, a indagação não é inócua. Diante do que o homem fez com seus semelhantes, pode-se falar em vida inteligente, generosa, solidária?
Uma espécie de guia espiritual, mentor, até “guru” do personagem, é o sessentão Franz Kopelck, astrônomo e pescador artesanal, definido pelo autor como “obstinado pela cosmologia”, pelo universo e pela busca de vida inteligente em outros  pontos da Galáxia e também de todo o universo.
“Ele ensinou-me muito sobre o sistema solar, a Via Láctea, o planeta terra e também sobre os corpos celestes que vagam errantes pelo espaço como cometas, asteróides, meteoros e meteoritos”, confessa o personagem.
Franz foi um verdadeiro pai espiritual para Arthuro.
“Não estamos sós”, ele acreditava.
Psicologicamente, é mecanismo altamente compreensível que busquemos no universo algo que esteja além desta vida terrena ou “terráquea”, contaminada por guerras, crueldades, exclusões, maldades, explorações e tanto tormento.
Aqui o homem é o lobo do homem.
E, apenas como parênteses, podemos afirmar que a cidadania continua atônita com a extensão da vilania e torpeza instaladas na República.
A passagem na qual o personagem senta na praia e tenta separar um grão de areia, é uma bela metáfora, símbolo de todo o livro. Ele lembra-se da informação de cientistas que afirmam existir mais estrelas no universo do que grãos de areia em todas as praias da terra.
Mas, apesar da preocupação com mundos extraterrestres, o personagem – dotado de sensibilidade social e oriundo de estrato humilde – não esquece do drama social, falando dos mineiros de sua terra (não nomeada). Ele lembra dos “restos de pirita depositados a céu aberto”; fala do “rosto desesperançado destes mineiros sem futuro”, além da doença inevitável. Na cidade de origem, a exploração do carvão era o único meio de sobrevivência. O autor define com talento estes seres: “trupe desesperançada.”
Luiz Paulo Pieri  fala da  insensibilidade das elites e de um modelo social calcado na exclusão e na exploração, organicamente anti-humanista.
Mas, apesar de todas as dores, ele guarda uma lição e um aprendizado: a honestidade, além do valor inalienável da dignidade humana.
O personagem quer novos horizontes, e escolhe o Planalto Central, com sua carga mítica e mistica,  para sua nova vivência. Ele opta por Brasília, carregada de mistérios, “envolta em profecias e capital do terceiro milênio.”
Arthuro vive se questionando, e cita Freud, que tem a percepção de que as idéias religiosas se originaram da necessidade premente de defesa dos seres humanos contra a  força esmagadoramente superior da natureza.
Mas o personagem também busca Deus. Ele aspira um “Deus Cósmico”, interado efetivamente com sua criação. Nessa busca, ele vai a Alto Paraíso, uma pequena cidade do estado de Goiás, com enorme carga mística e de mistérios.
Na trama, aparecem personagens interessantes, místicos, e que  fogem da rotina, como Goti Rem, Rá Muhá, o major Ribamar, o russo Sergei. Além de Angela, demonstração de que o amor é a nossa mais radical sede antropológica.
A ficção científica aparece claramente na viagem ao espaço feita pelo personagem.
God é a grande revelação para o ex-ateu. Ele é o Criador, o Pai de todas as criaturas e de todos os universos.
Este SER, a quem chamo de ENERGIA MAIOR, também sente desolação em relação aqueles que criou: “Passei séculos após  séculos, durante milênios, tentando consertá-los.”
Lamenta as barbáries, a ocorrência de infâmias, de sadismo e de tanta maldade imperando na convivência entre os homens.
O planeta Alganor seria o Inferno do cristianismo,  para onde  iriam todos os homens maus. Quem praticasse o mal, iria “penar pela eternidade nas fornalhas de Alganor.”
Quer dizer: só a purificação nos salva. É a eterna luta do BEM contra o MAL.
A purificação salvaria os homens que estavam em Alganor (que estariam nas trevas do mal). Pela revelação de God, cada um de nós, ao morrer, iria se transformar num novo planeta na imensidão do infinito, gerando ali novas vidas, uma nova tribo de humanos.
Mas para a purificação, é preciso passar por Alganor-mergulho na dor. Mas a dor ajuda a purificar.
O personagem se transforma. Depois da passagem por Alto Paraíso, ele ingressa na seita “Novo Mundo Cósmico”. As lágrimas de Arthuro salvam seus semelhantes: é a decisão de God.
Arthuro fez a travessia: é outro homem.
A partir daquele momento, passa a difundir a bondade e a virtude: seu trabalho será ecumênico e agregador.
SUA PRÁTICA EXISTENCIAL, será uma espécie de CATEQUESE CÓSMICA.
Assim, os viventes poderão melhorar.
Qual a lição que  fica? A de que nossa vida só vale como busca de efetivação de um projeto. Este projeto implica em doação, generosidade. É preciso optar pelo reino do SER, não do TER.
Cada homem tem seu lugar no mundo e no tempo que lhe foi concedido.
E todo sonho tem algo de profético, diz o Talmude.
Com a globalização excludente, as potências acham que a vida rabiscou todos os destinos.
Não. A aventura não pode morrer no mundo.
Na verdade, como assinala Vargas Lhosa, todos os seres humanos desejam outras vidas. E os escritores são os criadores destas existências.
A sociedade moderna perdeu o fundamento da ética.
Em nosso mundo, o ego desnorteado perdeu-se no anonimato. E a solidão é planetária.
O que nos rege no interior da sociedade capitalista é o cartão de crédito.
Poderia terminar citando Jean Paul Sartre: o essencial não é aquilo que se  fez do homem, mas aquilo que ele fez daquilo que  fizeram dele.
Arthuro, o personagem questionador de Luiz Paulo Pieri, poderia repetir as palavras de Dostoievski: “Quanto a mim, mais  não fiz, na minha vida, do que levar ao extremo o que vós não ousais senão até a metade.”
E, sinceramente creio que a luz maior pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos.


O autor dos livros:

Luiz Paulo Pieri

Obras Publicadas
Oh, MY GOD – Romance – 1999
O Manto de veja – Romance – 2001
“OH, MY GOD e O Manto de Vega” – Romance duplo - 2011




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