mercredi 28 novembre 2012

O SEGREDO ENTRE DOIS JOELHOS


Lariel Frota

1° capitulo

            Teria de fato extrapolado alguns limites   e estaria agora   pagando  pelos excessos?
            Razoavelmente  discreta em suas idas e vindas achava que  se não  chamasse  muito a atenção,  talvez  ninguém viesse a  criticá-la. É certo que as vezes exagerava na cor:  vermelho, prateado, roxo, dourado, de oncinha ou zebrinha. Não que pra profissão  fossem  indispensáveis, mas sempre foram grandes aliados. Pra ela,  junto com o batom e óculos escuros,   o  par de sapatos de  salto agulha de  cor vibrante, o mundo  com todas as suas vicissitudes parecia mais  fácil de se encarar.
            Não confessava a ninguém mas gostava de ouvir o  pac, pac,pac…do salto  ecoando no piso por onde passava. Sabia que  chamava  pra si alguns  olhares como se  estivesse numa passarela iluminada. Dispensar o salto altíssimo, que além do mais salientavam suas curvas femininas, sempre estivera completamente fora de cogitação.
            Certamente está pagando pelos seus atos. Talvez  devesse ter dado a devida atenção  as dicas da avó tão cheia de sabedoria, que ensinava brincando ou brincava de ensinar com as cantigas inventadas para cada ocasião.

            Menina não despreze os conselhos
            Daqueles que te querem bem,
            Zela pelo  que tens entre os joelhos
            Cuidado com  o vai e vem!!!!
           
2° CAPITULO

Não se lembra exatamente  quando  tudo começou. Não dera importância aos primeiros sinais  discretos. Recorda-se vagamente de umas fisgadas doloridas, uma dorzinha chata que  aparecia repentinamente depois de alguma estripulia  e se espalhava aos poucos, sintomas sempre atribuídos a algum excesso cometido.
            Na rotina agitada não tinha lá muito tempo pra ficar atenta a pequenos sinais do corpo. Extremamente ativa superava as crises tomando um anti inflamatório, um analgésico e só.
            Quando alguém alertava sobre a necessidade de procurar ajuda profissional respondia simpática:
            -Basta juntar os joelhos na  horizontal pra tudo voltar ao normal!
            Perdida  em pensamentos,  sorri ao pensar que pela segunda vez em pouco tempo há uma  lembrança  dos  joelhos em suas divagações solitárias.  Recorda  as aulas de biologia no tempo de ginásio. O professor  apaixonado por antropologia, defendia  teses pra lá de interessantes:
            -O corpo humano foi planejado para andar de quatro. Quando se fixou sobre duas  pernas para alcançar alimento,  desprezou sua natureza, começou a agredir as articulações forçando posições para os quais não estava programado.
            Lembra das risadas maliciosas dos meninos no fundo da sala, diante das simples citações: posições,  duas pernas….de quatro, que disparavam  o  alarme dos hormônios em plena efervescência. As meninas com um leve rubor de faces também se demonstravam instigadas por pensamentos picantes, a maioria deles inconfessos.
            Entre risadas e cochichos o  assunto provocava um frenesi incontido:
            -Já pensou?   A Meire com aquelas coxas grossas andando de quatro na minha frente? Ai que tentação!
            -Cala a boca garoto, se o irmão dela escuta vai dar confusão!
            O professor repreendia severamente e a aula de anatomia sobre as articulações  continuava, enquanto todos, inclusive ela, divagavam  sobre as  brincadeiras maliciosas e todas as possibilidades futuras do vai e vem das suas articulações…

3° CAPITULO


            Seria  efeito  dos analgésicos? Teria exagerado na dose?
            Sonolenta, com dificuldades pra respirar, os pensamentos completamente desconectados da realidade, parece presa a uma camisa de força. Tenta desesperadamente não se entregar. Onde foi parar sua conhecida calma e capacidade de racionalizar achando uma saída  por pior que fosse  a situação?
           Respira fundo, precisa reencontrar um mínimo de tranquilidade para entender o que está acontecendo.Sabe que o  pânico só pode piorar a situação. Com os olhos semi cerrados tenta estabelecer uma retrospectiva das suas últimas horas, quem sabe assim toma consciência do que ocorre de fato.
           A  certeza é de que está com sérios problemas no joelho esquerdo, a dor e a posição não deixam  nenhuma margem a dúvidas, ele está preso por uma tala apertada, mas porque a sensação de estar numa dimensão desconhecida?
           O lugar é muito iluminado, parece um túnel estreito, se assemelha as cápsulas espaciais nos filmes de ficção,  assustador. O que há do outro lado? Acima da sua cabeça, com o campo de visão prejudicado pela posição em que se encontra, pode perceber no teto o que parece ser  um caminho de luzes fluorescentes que vão mudando de cor, azul, lilás, verde....
Há  ruídos completamente desconhecidos. Um zum intenso seguido de  estalos distantes, está com os  ouvidos protegidos por algum artefato para abafar o som. Percebe-se uma personagem de uma estória surreal,  ou quem sabe  morreu,  e está presa naquela dimensão  entre o fim da vida aqui e o começo do outro lado.
Provavelmente  daqui há pouco aparece algum antepassado,  para mostrar as novas dependências onde passará a eternidade, mas como? Morrer então é assim? Vupt… acabou????
 Não é possível, ainda tem muito a fazer, dezenas de projetos em andamento, não seria justo ora essa!!!!

4º CAPÍTULO

            Um torpor esquisito começa a acontecer,   não consegue controlar  o corpo, a única parte  que sabe lhe pertencer é o joelho esquerdo, embora confusa, presa nesse tubo maldito, completamente fora do comando de tudo,  a dor está lá, aguda, insistente, irritante.
 Esforça-se pra manter os olhos abertos, mas as pálpebras estão pesadas.  Demasiadamente sonolenta perambula  lutando entre a semi consciência e o sono forçado.
Isso comprova, deve estar  no  primeiro estágio pós morte. Certamente daqui há algum tempo vai entrar alguém vestindo um  manto longo com um livro enorme na mão para fazer os acertos finais, ou seriam iniciais?
Que se recorde não cometera  lá muitos pecados durante sua existência. Uma escorregada aqui, outra acolá, alguns pequenos deslizes conseqüências da fragilidade humana, mas nada que comprometesse seu currículo de vida, ou seria nesse caso, de morte.
 Apesar da certeza da retidão ética  da sua trajetória,   está batendo uma insegurança. Teria cometido alguma falta grave durante sua passagem pelo planeta? Quem afinal estaria incumbido de  fazer os acertos, a prestação de contas?
Lembra da avó na infância distante,  falando sobre o zelo com as coisas de Deus, dos temíveis pecados  da carne, dos conselhos e alertas dados ao pé do ouvido quando  ainda estava  saindo das fraldas.
-Preste atenção no que a vovó vai falar, nunca, nunca mesmo deixe ninguém baixar sua calcinha até o joelho. Ninguém deve fazer isso, depois do xixi chame a vovó combinado?
Era muito pequena  mas lembra que seguia os conselhos ao pé da letra, só deixava a avó levantar sua calcinha. Se qualquer outra pessoa o tentasse, abria um berreiro.
Porque agora essas lembranças tão remotas? Talvez seja um alerta da consciência, avisando  que não foi assim  tão fiel aos conselhos da velha querida. Gostara da sensação do leve roçar dos joelhos nos primeiros abraços com o namorado. Também permitira, tempos depois,  sem nenhuma resistência,  que na manhã ensolarada da cidade praiana,   a despisse no começo da lua de mel.

           Menina não despreze os conselhos
            Daqueles que te querem bem,
            Zela pelo  que tens entre os joelhos
            Cuidado com  o vai e vem!!!!

            Teria exagerado? Onde está estabelecido o limite entre o certo e o errado, o excesso ou o equilíbrio  na questão do sexo por exemplo? Seria a dor intermitente no joelho uma prova de que está sendo punida  pelas transgressões cometidas?
            Começa a ouvir vozes,  sussurros  à distância. Seriam os julgadores se aproximando para decretar  a sentença final?
            Consegue visualizar a figura conversando com um grupo de pessoas, todas vestidas  com um manto escuro,  com capuz que cobre a metade dos rostos, é o   padre Betinho,  falecido há alguns anos.   Então é certo, morreu e vai começar seu julgamento. Tenta chamar a atenção do  vigário, com certeza ele será complacente no seu julgamento. Fora seu confessor desde a primeira comunhão. No entanto uma sonolência incontrolável a arrebata novamente.



5° CAPÍTULO
           
           
           
-Confere Zairon? Trata-se  da abdução 001yk 927?
-Correto. Podemos iniciar a transferência para o módulo protéico?
-As coordenadas estão perfiladas? Perdemos dois zions de primeira linha  na etapa anterior.
-Talvez por falta da qualidade do panículo adiposo, houve infiltração de zoogléia. Certifique-se de que está no estágio correto, não podemos perder mais nenhum elemento nessa transferência. Estamos na fase final do nosso projeto. A salvação da nossa espécie depende disso, não se esqueça!
-Se depender de mim comandante Zoóbio não ocorrerá  mais nenhuma perda. Talvez devêssemos ter designado outro lugar para implantar os pequenos zions não acha?
-Não meu caro Zairon, todo o projeto foi muito bem estudado pelo departamento de zoantropia, aliás levou muito tempo para chegarem  a conclusão dos cálculos. São exatamente esses os locais mais apropriados para o  perfeito desenvolvimento dos nossos preciosos zions.
-É que em alguns casos há  pouco material calórico e protéico a disposição!
-Por isso é preciso muita atenção para detectar o   momento ideal de extração da abdução. O que pode ter ocorrido nas perdas recentes é justamente um pequeno engano no momento correto  da transferência.
Nesse caso  em que estamos trabalhando no momento, acredito que esteja tudo dentro do planejado. Vamos seguir com o protocolo.
-As cápsulas de recolhimento estão na temperatura correta? Parece que o medicamento do corpo incubador está deixando de atuar. Precisamos  seguir rápido para o próximo estágio.
-Perfeito. Afastando a rótula. Há um discreto edema condral na faceta medial e também um edema perifascial do músculo poplíteo….hum, isso é ótimo, o pequeno zion teve alimento suficiente nessa primeira fase. Perfeito, percebo inclusive um edema periligmentar do colateral medial. Ora, ora vejam só, desde microscópico demonstra um grande apetite, há um moderado derrame articular. Precoce essa criaturinha…..



6° CAPÍTULO

            Sem poder mexer um único músculo do corpo  ouviu esse diálogo estranho. Despertando aos poucos  do sono forçado,  resolve  que o melhor é fingir  que ainda dorme,  mantendo  as pálpebras semi cerradas consegue enxergar agora bem perto,  os rostos  das criaturas que a cercam.
            São horrendos, sob o capuz  um vazio com olhos desproporcionais. Não há boca, nem nariz, apenas dois olhos vítreos que a observam como lentes pesquisadoras de um  microscópio estranho.
            Completamente paralisada dentro do túnel iluminado está aterrorizada com o que acaba de ouvir. A dor aumenta absurdamente, parece que com aparelhos cirúrgicos abrem  seu joelho, procurando por alguma coisa lá dentro.
Não!    Não está no estágio  pós morte aguardando o julgamento final.
Ouviu  claramente as criaturas  falarem  sobre abdução.  Foi capturada por alguma nave espacial de que tanto ouvira falar na mídia nos últimos tempos. Precisa escapar, não vai se entregar  facilmente; a idéia de ter seu corpo participando  de qualquer projeto alienígena a apavora. Tirando forças não sabe de onde se solta do interior daquele túnel maldito. Tão rápido quanto permite a dor intensa em toda a perna esquerda,  foge pelo  corredor iluminado. Há de encontrar alguém para ajudá-la, quem sabe existam outros prisioneiros abduzidos por aquelas criaturas sem rosto. Juntos haverão de formar uma frente  de resistência.
            Parece que as criaturas sem rosto  não perceberam  a fuga, estavam por demais compenetrados nos seus trabalhos abjetos, o joelho lateja intensamente.  No   corredor imenso muitas portas, todas fechadas. O coração acelerado parece sair pela boca, o medo e o desejo de fugir é tanto que sente os pés longe do chão, deslizam como se tivessem asas. De repente uma porta aberta.
            Uma sala ampla, muito iluminada com dezenas de macas onde pessoas inconscientes parecem esperar  por uma cirurgia em grupo. Todos tem  os joelhos abertos que sangram abundantemente. Um  grupo de alienígenas se aproxima, carregando alguns aparatos cirúrgicos.  Tão rápido quanto consegue a dor imensa,  se enfia debaixo de uma das camas. Tremendo de pavor ouve as mesmas vozes metálicas saindo dos rostos  vazios.
            -Rápido Azor, precisamos terminar a transferência desses  nossos pequenos zions. Os módulos de recolhimento estão na temperatura adequada. Temos pouco tempo pra providenciar a transmutação dentro das margens de segurança!
            -Certo comandante. Projeto 001yk927 de abdução em fase de conclusão. Todos os zions implantados nas articulações dos terráqueos estão em perfeitas condições bio energéticas; iniciando transferência para o modulo de maturação.
            -Perfeito Azor, temos ainda quatro grupo de abduzidos aguardando a retirada. Dentro do prazo estipulado estaremos voltando para nossa galáxia com nossa raça preservada da extinção.
            -O comando geral já decidiu o que fazer com esses terráqueos?
            -Sim, trata-se de uma raça inferior. Não evoluíram  uma nano partícula cósmica nos últimos milênios; só servem como módulos de primeiro estágio. Que se diga a bem da verdade, foram os   péssimos  hábitos  alimentares, aliados a uma vida sedentária dessa  raça,   que viabilizaram condições ideais de desenvolvimento para os nossos zions. Não nos cabe zelar por uma sub raça prepotente e maligna,  que chega ao absurdo de injetar substância tóxica em seus corpos, alterando as características originais,  simplesmente em nome de uma beleza que só uma visão distorcida pode enxergar.
            -Ok comandante, em 47 segundos começamos a retiradas. Temos uma boa  margem de segurança,  visto   que  conforme suas orientações,  não temos que nos preocupar  com o  estado dos corpos gestores.

            Corpos gestores…. raça inferior…. sub raça prepotente e maligna….. pois sim! Ela é que não vai ficar indiferente, acovardada esperando um bando de alienígenas arrancarem  algo que implantaram em todos aqueles pobres corpos adormecidos,  certamente sob a força de alguma potente medicação. Agora entende tanta gente com problemas nas articulações, principalmente nos joelhos, as vezes no esquerdo, outras no direito, em muitos casos em ambos.
Foram todos como ela  abduzidos. Por algum processo desconhecido implantaram um embrião  alienígena para que tivesse dentro das articulações condições de se desenvolver num primeiro estágio. Agora entende as  salas de espera dos ortopedistas lotadas, as sessões de fisioterapias com filas imensas.
 Não vai ficar acuada como um bichinho covarde, vai lutar com todas as forças. Gritará tanto que acordará todos os  companheiros de infortúnio. Se ela conseguiu  despertar e escapar, há de conseguir  ajudar  outros tantos a fugir também.
Enche os pulmões de ar. Desde criança foi conhecida pelo poder vocal,  muitas discussões ganhara literalmente no grito. Mais que nunca é hora de colocar em ação todo esse potencial……

FINAL

            Convicta de que tem  condições de salvar um grande número de parceiros de infortúnio, rasteja por debaixo das camas;  o lugar ideal para colocar seu plano em ação é ao lado de uma grande janela. Dali quem sabe após despertar o maior número de pessoas possível,  gritando a todos os pulmões, poderá iniciar a fuga. Nunca foi de se deixar abater, aconteça o que acontecer vai lutar com todas as forças.
            Começa a ouvir uns grunhidos fininhos. Em pânico descobre que vem de umas coisinhas gosmentas que estão sendo retiradas, com todo cuidado e carinho dos alienígenas,  dos joelhos de alguns pobres humanos como ela. São de dar náusea, parecem lesmas  escuras,  cheias de espinhos, com olhinhos brilhantes e bocas enormes.
            Não há tempo a perder, ou começa a gritar  agora,  ou a humanidade toda servirá de incubadora para aquelas criaturinhas asquerosas.

            -Rose, Rose, calma. Acorda  querida…calma…ta tudo bem…sou eu!
            -Tira, tira esses alienígenas do meu joelho, que nojo!  Acorda todo mundo antes de que seja tarde!
            -Calma dona  Rose….a senhora está voltando da sedação, está entre amigos. Não há nenhum alienígena por aqui, fique tranquila. Sou o Dr. Smith responsável pelo setor de RESSONÂNCIA MAGNÉTICA
            -Meu joelho está doendo, o que aconteceu comigo? Estou  enjoada, meio zonza!
            -A senhora veio fazer exames por conta das dores no joelho esquerdo lembra?
            -Sim, agora  que o senhor falou estou  me lembrando. Vim fazer uma ressonância magnética. As enfermeiras  me colocaram na maca, prenderam meu joelho com umas talas e  deram algumas orientações…..
            -Então dona Rose, quando íamos começar o exame a senhora teve uma crise de pânico. É muito comum isso acontecer por conta da sensação de claustrofobia, como a sua pressão arterial se elevou, optamos por sedá-la  levemente antes de continuar os exames.
            -Quer dizer que eu não fugi pelos corredores, nem havia alienígenas mexendo no meu joelho?
            -Claro que não meu bem, você  dormiu esse tempo todo!
            -Fique calma dona Rose, sonhos ou alucinações são efeitos da medicação. Seus joelhos estão intactos  nenhum alienígena mexeu neles,  posso lhe garantir.
            -Nossa Rose, que susto. Você estava dormindo  tranqüila, de repente  deu um grito tão alto, mas tão alto  que me apavorou de verdade. Se houvesse de fato algum alienígena por perto,  teria partido sem precisar  de nave espacial!
            -Desculpe, é que eu precisava……deixa pra lá. Eu já posso ir pra casa doutor?

                                                          Fim….
             

ShareThis

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...