lundi 5 novembre 2012

O FALADO RETRATO


O PARENTESCO DA CRÔNICA COM O CONTO ENXUTO É TÃO ESTREITO QUE ATÉ MESMO O CONSAGRADO, GENIAL MARIO DE ANDRADE FOI EVASIVO:  “CONTO É  TUDO AQUILO QUE VOCÊ QUER SE SEJA CONTO E CRÔNICA O QUE DESEJA SER CRÔNICA.”

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        Falavam muito nu retrato dela. Em ponto grande, quase viva, lá estava a provocante estampa na parede do borracheiro. O retrato despontava em outros cantos descomprometidos. Uma comadre surpreendeu a mesma figura atrás das gravatas, no guarda-roupa do viúvo. Qualquer adolescente podia memorizar a desejável criatura e levá-la para baixo do chuveiro.

        Clemente não gostava que o chamassem pelo sobrenome. Preferia Adriano. A cartomante, logo nas primeiras cartas, aconselhou-o a mudar de ares, para que saísse da depressão calcada na solidão. Adriano era só guarda-livros, mas sabia fechar balanço. Arrumou emprego noutra cidade. Novato no lugar, notou o retrato pela primeira vez no chalé de jogo do bicho. Passou a freqüentar o local. Fazia fezinha num grupo qualquer, sem palpite, só para namorar a modelo. Sua obsessão ia além da nudez. Apaixonou-se pela criatura. E num domingo à tarde, arrombou o chalé. Quis apenas o retrato. Colocou-o no seu quarto, bem em frente à cama. E virava o travesseiro pra lá e pra cá, a buscar, com os deslocamentos, dar vida à mulher.

        Tal sensualidade ultrapassou o ridículo para ingressar no delírio. O devaneio levou-o a comprar cama de casal. Estendia o retrato ao lado, na hora de dormir. A palavra volúpia, criada para esses casos, não diz que o desejo de Adriano materializava uma alma ilusória. A fantasia, a alucinação, a quimera, compunham ficção especulativa, fantástica. Misto de romantismo e horror.

        Descobriu que a mulher, tão falada em rodinhas sacanas, era a mesma de sua paixão. Sofria com o desnudamento e abuso sádico. Sentia inveja e revolta com a obscenidade na boca de qualquer um. Aflito, à beira da paranóia, procurou mais retratos em estabelecimentos sem compromisso. Onde encontrava, assaltava, roubava apenas o retrato. Quase foi pego no salão de barbeiro. O do borracheiro ele comprou.

        Dispôs os retratos por todo apartamento: na sala de jantar, em frente ao sofá, sob a pia da cozinha. No corredorzinho, só para as chegadas e despedidas. Não pôs no banheiro. Achou que seria desrespeito.

        Voltando pra casa em incerta notinha, antes de colocar a chave, ouviu passos. O retrato mais próximo andou, abriu a porta. Ele a beijou naturalmente. Entrou. Ia fazer as coisas de costume, mas antes que visitasse a geladeira, ela foi dizendo: “Estou indo.” “Para onde?” “Vou embora para sempre”. Lenta e decidida, percorreu os cômodos, recolhendo a si mesma, como se estivesse fazendo as malas. Pronta, todos os retratos se incorporaram numa única imagem. Partiu.

        Adriano, nada clemente, rondou, vasculhou a cidade. Nunca mais viu outro retrato dela. Numa saudade apertada, apareceu no chalé pretextando um joguinho e sondou o bicheiro sobre o roubo naquele lugar. Quem sabe não teria uma cópia?  E o bicheiro caiu na asneira de insinuar já ter saído com a modelo, que deixou a cidadezinha para fazer a vida na capital.

        Num cair de tarde, no costumeiro boteco, Adriano  surpreendeu o bicheiro numa roda de amigos, justamente falando do tesão que nutria pela moça do retrato. Descrevia a criatura com requintes de depravação. Provocativa. Coquete e ardente, como no bolero. Sem pudor. Sabia penetrar, usar os lábios dela entreabertos. Acabou por inventar o perfume do corpo.  A mão direita no bolso, buliçosa.  Adivinhava-se a devassidão. A platéia, ali, viajando no sexo virtual e solitário. Adriano, passional, emborcava traçados de cachaças sem conta. Explodia de ciúme e ódio.

        Depois que o bicheiro foi morto a bala, Adriano sumiu. E a policia, ao procurar obter o retrato falado do criminoso, não sabe que a pista do crime está no falado retrato.
               
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Por  Aguinaldo Bechelli :zingamocho@gmail.com

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