samedi 17 novembre 2012

Crônica da Urda


HISTÓRIAS DA MINHA AVÓ – II




                                   Acabo de ler num livro de História que, em 1772, depois de uma guerra civil, a Polônia foi dividida entre a Rússia, a Prússia e a Áustria, e que, através da partilha da Polônia, a Rússia obteve a Ucrânia polonesa e a LITUÂNIA.
                                   Até hoje eu não sabia como a Lituânia, terra natal da minha avó, fora parar sob domínio russo. Não posso afirmar, também, que a situação continuasse a mesma 100 anos depois, quando a minha avó nasceu – vou pesquisar mais um pouco a respeito.
                                   O fato é que minha avó nasceu numa Lituânia sob domínio russo, lá pelo ano de 1888, bem quando foi assinada a Lei Áurea, no Brasil. Já contei, em outra crônica, como se vivia mal lá, naquele tempo. Tão mal se vivia que começou a circular a idéia de emigração, e toda aquela aldeia onde minha avó vivia decidiu cair fora. Era fácil querer, o problema era poder. Eles viviam num pequeno país dominado pela Rússia czarista, com as fronteiras devidamente fechadas por barbudos soldados russos. Falar em emigração era proibido, mas quem segura o ser humano quando ele quer realmente alguma coisa? A aldeia da minha avó resolveu que iria fugir, e a história dessa fuga tem lances grandiosos, que vale a pena contar.
                                   Aqueles lituanos do século XIX fizeram cuidados planos. Um homem com uma carroça levaria as malas de toda a aldeia, e fazendo longa volta por uma floresta, alcançaria a fronteira num lugar pouco vigiado. Um homem com uma carroça chamaria pouco a atenção, não seria a mesma coisa que um bando de pessoas fugindo por uma floresta. Tá, o problema das malas estava resolvido, mas e o das pessoas?
                                   Sem dúvida, eles foram criativos. Organizaram uma festa fictícia em local próximo da fronteira, e depois, fingindo-se de muito bêbados, dirigiram-se cantando até o posto da guarda. Os homens levavam garrafas de vodka na mão e fingiam beber mais; as mulheres e as crianças limitavam-se a cantar. Pararam no posto da fronteira, cantaram para os guardas, e acabaram oferecendo-lhes vodka. Dá para imaginar que um ou outro guarda aceitou o seu golinho e, foi só eles se distraírem um pouco, e toda a aldeia da minha avó pôs-se a correr e a atravessar a fronteira. 
                                   A fronteira era uma vala, e do outro lado havia soldados alemães. Não sei o que tinha levado aqueles antigos lituanos a admirarem tanto a Alemanha, mas o fato é que eles tinham a maior confiança nos soldados alemães. Quando começou o frege de foge de cá e persegue de lá, um pai pegou uma criança pequena, atirou-a para o outro lado da vala, e desabafou:
-                                      - Se eu não conseguir fugir, pelo menos o meu filho se cria em lugar melhor! 
-                                      Acabaram fugindo todos. O último a atravessar a fronteira foi perseguido por um dos soldados russos a quem tinham oferecido vodka, e o russo estava para acertá-lo com sua espada quando ele pisou em solo alemão. Minha avó impava de emoção quando contava como um soldado alemão brandira sua espada e ameaçara o russo, dizendo que agora era tarde, que o homem já estava no outro país.
-                                      Não sei o que aconteceu em seguida, mas sei que a carroça das malas os alcançou depois, e que mais tarde foram todos parar no porto de Hamburgo, na Alemanha. Não sabiam, anida, que viriam para o Brasil. O futuro era uma grande incógnita, mas minha avó jamais esqueceu o que aconteceu no porto de Hamburgo: meu bisavô comprou para as crianças castelinhos feitos de açúcar, guloseima que eles nunca tinham visto, tão linda que não dava vontade de comer. Decerto que os adultos estavam enfrentando graves problemas para definir o futuro, mas para as crianças (minha avó, então, estava prestes a fazer sete anos), aqueles castelinho de açúcar foram a coisa mais maravilhosa que o porto de Hamburgo e a Alemanha poderiam lhes oferecer.
Acabaram decidindo vir para o Brasil, atraídos pela notícia de que aqui era um país onde se plantava um pedaço de pau e nasciam batatas (aipim). Eles se chamavam Katzwinkel. Sei que há muitos Katzwinkel espalhados por Santa Catarina, e todos são da família da minha avó. Adoraria se se comunicassem comigo,  

(Escrito em 16 de junho de 1996)
Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR

ShareThis

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...