mardi 30 octobre 2012

CRÔNICA DA URDA


O Homem do Pôr-do-Sol e das Borboletas Brancas

(Para Adenilson Teles dos Santos)



Dia 31 de dezembro de 2006, Chaco Paraguaio, hora do pôr-do-sol. É assim que eu quero lembrar-te, meu amigo, no calor daquele Chaco e daquele dia, as janelas do ônibus abertas ao máximo, o vento entrando por elas e querendo nos refrescar, e tua franjinha de seda voando com o vento, a fascinação pela beleza daquele último sol do ano a te acender os olhinhos de estrelas, a máquina fotográfica na mão...

O pôr-do-sol no Chaco Paraguaio é uma das coisas mais bonitas de se ver no mundo – bem como a lua cheia, quando nasce lá, toda alaranjada, como já a vira no passado. Mas aquela que estava chegando era noite de Ano Novo, e não noite de lua, e então havia que apreciar até o último momento o mergulho daquele último sol do ano por detrás do deserto verde que é o Chaco, aquela enorme planície que um dia já fora mar e que ainda é salgada, mas onde incontáveis plantas se adaptaram ao sal e formam um sistema único no mundo, que vai desde o mais fino capim até às grandes árvores barrigudas, que armazenam grande quantidade de água nas suas barrigas para os tempos de grandes secas... Em nenhum outro lugar do mundo existe uma vegetação assim, e era bem lá dentro do Chaco, naquela incipiente noite de Ano Novo que viajávamos, e em nenhum momento me passou pela cabeça que aquele seria o último Ano Novo para ti, meu amigo dileto, e que teus olhinhos de estrelas já não se acenderiam contra a luz do pôr-do-sol em outra virada de ano!
Parece mentira pensar nisto, mas aquele era o último Ano Novo do meu amigo Adenilson Teles, e eu estava tendo o privilégio de estar ali, junto, enquanto o sol se punha e ele ficava de pé no ônibus, a pequena máquina fotográfica junto ao rosto, o curto cabelo de seda voando ao vento, aquela postura de rapaz comportado que o caracterizava se escorando nos encostos dos bancos antigos daquele ônibus antigo, a perseguir o último sol de 2006 para conseguir as melhores fotos possíveis.
Choro, choro muito, agora, quando lembro, mas é assim que quero lembrá-lo, solto e livre dentro do vento, a máquina fotográfica sendo erguida em outros ângulos enquanto o sol teimava em se ir e incendiava todo o horizonte, a franjinha de seda voando, seu rostinho tão bonito todo franzido no esforço do jornalista profissional que não podia perder de registrar a beleza incomensurável daquele pôr-do-sol – só agora, que já faz uma semana que tu te foste, é que volto a pensar de novo, e faço as contas de como a minha vida estava entrelaçada com a tua! E não só a minha: ontem, depois da missa de sétimo dia, fomos, muitos amigos, a um bar, e quando eu disse tal coisa, todos os outros também a disseram: como as nossas vidas estavam entrelaçadas com a tua, meu querido Teles, como cada um de nós precisava tanto de ti, dependia tanto de ti!
Apesar de querer sempre te lembrar na liberdade do vento dentro do Chaco Paraguaio, outras lembranças também vêm, e não há como não te lembrar como alguém onipresente nas nossas vidas, sempre com aquele jeito de bom moço, o porte empertigado atrás de todas as notícias e todos os ângulos, o passinho ágil que não o deixava perder nada, trilhando os caminhos da dignidade e da cidadania, sempre pronto para ajudar a todos, sempre cordial, atencioso e brincalhão ao telefone, sempre pronto a escrever o texto que era necessário naquele momento, sempre pronto a fotografar o evento que aparecesse, sempre do lado do mais pobre, do mais desprotegido, do mais necessitado - ah! meu querido amigo que não faltava em nada do que houvesse em cada vila, em cada assentamento, em cada ocupação – e que estava sempre pronto a estudar mais um pouco de teoria e ir observar o mundo todo por aí! Um ano antes daquele último pôr-do-sol de 2006 preparávamos para, via Roraima, irmos ao Fórum Social Mundial de Caracas/Venezuela – e antes estivemos nos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre – e nos primeiros dias deste ano no qual eu ainda estou vivendo adentramos à Bolívia, em encantada região que não é assim tão distante de La Higuera, e havia tanto verde, e tantos lírios do brejo muy floridos e com tanto perfume que dentro do nosso ônibus a gente se inebriava com aquele aroma que atraía milhares, milhões de borboletas brancas, e tu, emocionado,olhavas e nem fotografavas, pois ficavas pensando que decerto o Che passara por ali... senão, como tanto perfume e tantas borboletas? Meu Teles querido, decerto aquelas tantas borboletas brancas e aquele perfume de lírios do brejo te esperavam nos longos quilômetros daquele primeiro dia de Bolívia como numa saudação, porque há seres que são mágicos e sabem quando alguém não vai voltar para aquele lugar... Ah! Meu amigo tão querido, também é bom te lembrar assim, os olhinhos de estrelas fascinados por aquelas borboletas brancas, o queixo apoiado na mão de cotovelo na janela cheia de vento...
Há que chorar, sim, ao lembrar coisa tão doloridamente doce e dura, porque eu não me conformo de que tenhas ido, meu amigo querido, e eu sei que foste mesmo porque fui lá naquele velório onde parecias dormir tranqüilamente, o rostinho bonito suave e descansado, só que a franjinha de seda não voava ao vento, como quero te lembrar sempre lá naquele dia no Chaco...
Ah! Teles, ah! Teles, nunca mais a vida será a mesma. Lembro das fotos de passarinho que me mandavas, e das outras, algumas das quais até botei na parede da sala da minha casa, eu desfilando junto aos palestinos, desfilando com a bandeira do Iraque – estavas sempre atento a tudo, principalmente a quem sofria e a quem era solidário, e então me aparecias com tais fotos que nunca teria tido se no mundo não tivesse nascido, um dia, um menino que viera para fazer toda a diferença, e nenhum de nós que te conhecíamos poderemos ser, de novo, como éramos antes que entrasses nas nossas vidas.
A vida ficou muito mais difícil agora, meu amigo tão querido, tão difícil que, nós que ficamos, nem sabemos direito como agir.
Então quero te lembrar naquele pôr-do-sol do Chaco, a franjinha de cabelos de seda voando com o vento, teu jeito de bom moço a capturar o último sol do ano na máquina fotográfica, o deslumbrado encanto com o mundo amplo daquele lugar que um dia fora mar, o peito aberto para a emoção e para a vida.
Não dá para te dizer adeus, meu amigo! Tu vais estar sempre tão aqui junto de nós do mesmo jeito que estavas antes, e eu sempre vou fazer de conta que te telefono e pergunto: “Achas que posso botar tal frase no texto tal?” e outras coisas assim, e em todas as tardes de véspera de Ano Novo da minha vida vou te ver, de novo, os cabelos de seda ao vento, a ânsia de captar aquela beleza toda numa fotografia, e vou me lembrar do teu maravilhamento com as borboletas brancas da Bolívia, e pensar na tua lealdade, e na tua coragem (que vou contar num outro texto), e no entrelaçamento da tua vida com a minha, e vou chorar sempre quando a saudade vier, como agora, pois sei tão bem, tão bem, que esta é daquelas saudades raras, saudade que nunca irá passar...

Blumenau, 04 de Novembro de 2007.

Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR

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