dimanche 9 septembre 2012

Crônica da Urda


“Pleno e firme como um botão de rosa”
(Verso de Marcos Konder Reis)
                                   (Para Eduardo Venera dos Santos Filho)      

(Acontecido há exatamente 40 anos – era uma manhã de sol, como hoje.)

                                   Oito de setembro. Dia em que você fez trinta anos.  Em tempos que se tinham ido, meses atrás, eu percebi que você sentia um certo temor ao pensar que faria trinta anos). ( ...) E aquele era o dia dos seus trinta anos.
                                   Eu planava de alegria ao ir para o serviço – a qualquer instante daquele dia veria você!(...)
                                   Mal e mal havia chegado ao serviço quando as crianças subiram as escadas correndo e cantando que você estava ali!
                                   Sem comentários o que senti. A emoção era tanta que eu quase não coordenava mais os movimentos, quase não conseguia andar. Trêmula, insegura, sustentando-me nos móveis, fui até a porta. Era você, realmente você, você, você, você real, você ali, você! Você pleno e firme como um botão de rosa. Você que era a minha vida!
                                   É incrível como os detalhes que nada significam ficam gravados no subconsciente da gente quando acontece um momento importante.
                                   Fecho os olhos e é como se estivesse vendo tudo de novo.
                                   No céu havia uma névoa fininha, diáfana, como um véu muito tênue a tornar esmaecida a profundeza do azul. Os morros verdes, ao redor, estavam com uma delicada cor azulada (). Pedaços de cerração compacta, absurdamente branca, vogavam aqui e ali, entre os vales e o alto dos morros, e o sol dardejava  por entre os pedaços de névoa e irisava desconhecidas gotinhas d´água escondidas em folhas e flores distantes, fantasiando o vale inteiro de diamantes iridiscentes (...). A natureza toda parecia recém lavada, recém maquiada, engalanada de joias.
                                   A escada que descia estava na sombra, mas o gramado ao lado rebrilhava com todos os seus diamantes de gotas de orvalho, e entre o gramado e a escada, no canteiro das roseiras (...) aranhas noturnas haviam estendido tênues teias de seda quase invisível, e que a manhã, com a sua carga de orvalho e de sol, havia transformado em teias tecidas de luz.  Na sombra das laranjeiras novas que se deitava sobre a escada, a fragrância da primavera irmanava-se com a fragrância da alegria mais completa, e lá embaixo, onde a escada começava, como um sol que desponta rei entre todas as maravilhas do universo estava você, você, pleno e firme como um botão de rosa, VOCÊ, que era a minha vida!
                                   A alegria me sufocava, me deixava sem forças e, movendo-me como se fosse de chumbo, equilibrando-me para não cair, tropeçando nos meus próprios pés, consegui ir me aproximando mais e mais (...). Um degrau, um passo, estava diante de você! Petrificada, não conseguia vencer aquele último degrau. Eu me esquecera de como você era belo e agora me sentia atordoada, subjugada pela sua beleza, enfeitiçada por ela. (...) Em nenhum momento de que me lembre você preencheu tão intensamente o quesito de “pleno e firme como um botão de rosa”.
                                   (...)
                                   Estava sonhando uma realidade ou a realidade era um sonho? Tentei raciocinar, sair da hipnose. O sonho é que era realidade, e a realidade era você ali, apenas a um degrau de distância de mim. Magnetizada, não conseguia desfitá-lo, não conseguia mover-me. Foi você quem se moveu, quem me estendeu a mão e quebrou a hipnose. Ah! Sim, era o dia dos seus anos! (...) Todo o seu rosto era sorriso, o seu frescor de botão de rosa era pura alegria, e eu comecei a reentrar na realidade.
                                   (...)
                                   Aquela manhã foi uma maratona de felicidade. Chorava lágrimas de alegria a todo o instante em que ficava só, sentia-me inundada de luz.  Era como se, dentro de mim, um rouxinol estivesse a cantar (...).

                                               Blumenau, 08 de setembro de 2012.

                                               Urda Alice Klueger
            Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR

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