lundi 9 juillet 2012

Outrora


Hoje, folheando uma revista, vi uma foto de uma casa antiga na qual se destacava um dos cômodos que, no passado, era o mais visitado e agradável de se estar. Se você pensou cozinha, acertou. Exatamente. Outrora, as cozinhas eram espaçosas e, geralmente, as mães e as avós eram as responsáveis pela preparação das iguarias apreciadas por todos. Recordo-me que sempre havia frutas, um bolo ou outra sobremesa sobre a comprida mesa - que juntamente com os tamboretes, o pilão, as máquinas de moer carne e milho, a balança, o fogareiro ou forno à lenha e os demais utensílios domésticos compunham a mobília deste espaço deveras acolhedor. A cozinha era o território preferido tanto de quem gostava de cozinhar quanto de quem apenas desejava degustar os deliciosos pratos ou, simplesmente, sentar-se e conversar.

Apesar de ser relativamente jovem, ainda alcancei esse tempo. Era muito criança, mas me lembro. Na adolescência, tive o privilégio de contar com quatro professoras de culinária: minha avó, minha mãe e duas tias. Chego a salivar, quando me vem à lembrança a carne assada que minha avó preparava. Deixava-a tão tenra que, antes de comê-la, eu a desfiava com os dedos – previamente bem lavados, é claro!

Nas camadas mais humildes da população, as refeições eram servidas na própria cozinha e, após alimentarem-se, todos ajudavam a lavar e enxugar a louça. Era uma festa! Parecia um mutirão. Todos alegres e satisfeitos, cantando, dialogando; enfim, vivendo de acordo com a sua realidade, sem estresse, sem pressa. Naquela época, os alimentos eram naturais, tinham mais sabor e nós tínhamos tempo de senti-lo.







Hoje, as cozinhas das casas e dos apartamentos populares são tão pequenas que mal permitem a uma pessoa se locomover. As mães trabalham fora, para ajudar no orçamento familiar, e são raras as que têm tempo de cozinhar. Muitas acabam optando por comerem de marmita ou quentinha. Aquele bolo ou doce diário só, talvez, quem sabe, no domingo, se der tempo. As conversas ficaram inviáveis – mesmo que as pessoas tivessem tempo, não haveria espaço físico suficiente. A carne já vem moída do supermercado. Quanto ao milho, nada que um liquidificar ou multiprocessador não dê conta. As refeições em família são pouco frequentes, ou porque os horários não coincidem ou devido à distância entre os lares e os locais de trabalho. Desta forma, não resta outra opção senão fazer um lanche nas imediações ou no próprio estabelecimento comercial ou industrial. Já a lavagem da louça, dependendo das “normas da casa”, é feita, à noite e por escala, pela mãe ou pela irmã mais velha. No tocante à alimentação, atualmente, seja em casa ou no trabalho, mal mastigamos - e isso é péssimo. Praticamente, não conseguimos nos concentrar para sentirmos o gosto dos alimentos devido às múltiplas atividades que temos de desempenhar e ao tempo reduzido que nos sobra para satisfazer esta necessidade básica. Pensando bem, não sei se vale a pena senti-lo, pois com tantos alimentos geneticamente modificados e amadurecidos artificialmente o sabor, sem dúvida, não é mais o mesmo.

Com base nas minhas recordações e reflexões, embora valorizando o progresso, a praticidade e o conforto, cheguei à conclusão de que eles nos custam muito caro, já que nos privam de uma vida simples, saudável e, com certeza, mais feliz.

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