mercredi 13 juin 2012

Crônica da Urda


ARTE E CULTURA-Coisas que não podem ser matadas!
                                
                                               (EmAndahuaylillas/Peru)
                                                
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                                      (Excertos do livro "Viagem ao Umbigo do Mundo,publicado em2006)
                                       
                                               Aproximava-se o final do 2º Encontro Interamericano de Motociclismo de Cusco – o dia depois de Machupichu seria o último. Também seria o último que eu passaria integralmente com os meus amigos harleyros.
                                               Já cedo, de manhã, fui de novo com eles até Sachsayuhaman, mas dessa vez sem o silêncio e o respeito que Sachsayuhaman exige. Ia-se apenas para tirar fotografias. Tiramos muitas, cada delegação por sua vez; todas as delegações juntas. Uma dessas fotos, hoje, tenho num quadro, na parede do meu escritório, junto com o meu diploma de APHD[1][1], a me fazer lembrar da fantástica viagem que andei fazendo por esta América de meu Deus, como se diz na Bahia.
                                               Depois da solenidade das fotos, tivemos um dia altamente lúdico. Havia brindes para entregar, e seu Chico me botou na sua garupa com uma enorme caixa cheia de camisetas, que eu ficava lhe passando, e que ele fazia pontaria e jogava sempre que via uma criança pelas ruas de Cusco. Íamos em caravana, uma moto atrás da outra, e todos faziam coisas parecidas. Naquele dia estávamos sem o carro de apoio, e em certo momento vi o Nilo Lobo Solitário passar por nós também na garupa de alguém.. Era bonito ver o comprido cordão de motos negras desenrolando-se cerros abaixo, quando havia uma descida.
                                               Após a brincadeira da entrega dos brindes, saímos fora da cidade, 35 quilômetros até a cidadezinha de Andahaylillas, famosa por sua igreja construída no final do século XVI, forrada de muito ouro e um tanto quanto abandonada e descuidada, o que me fez pensar nos estragos causados por algum terremoto recente. Essa igreja é conhecida como a Capela Sistina da América, e há que se pagar um pequeno ingresso para poder se ver toda a sua grande magnificência. Entre outros atrativos, é impressionante a quantidade de afrescos que cobrem as paredes, e sobretudo o teto, com modelos geométricos e flores com folhas de ouro. O altar é alto, barroco, talhado em madeira de cedro e adornado, também, com folhas de ouro; no centro está a imagem de Nossa Senhora do Rosário. Seu tabernáculo é coberto de prata, e mais abaixo tem uma área de espelhos que servem para refletir a luz das velas e a luz exterior, melhorando a luminosidade interior.[2][2] Fico imaginando a esmagadora impressão que tal construção artística deve ter provocado nos sobreviventes dos Filhos do Sol, que, desesperançados e vencidos, eram obrigados a assumir a fé católica como única forma de não serem destruídos como a sua cultura estava a ser. (Não imaginavam os espanhóis conquistadores que, cinco séculos depois, está ainda bem viva a antiga cultura que pensavam ter destruído.)
                                        Também há famosa feira de artesanato ao longo de comprida praça logo à frente da igreja, e por todos os lados há muitos europeus que preferem um turismo menos urbano.
                                               Andahuaylillas nos aguardava com pompas. Na verdade, déramos sorte: chegáramos ali no dia da festa da padroeira. Mal chegamos, e fomos brindados com impressionante balé colorido no pátio fronteiriço à igreja, balé de muita gente dançando em coloridíssimos trajes bordados e inspirados em coisas da cultura antiga daquela região. Um impressionante Demônio de língua de fora dava a tônica ao balé, e, curiosíssima, fiquei a perguntar aos espectadores peruanos os significados daquela dança e daqueles trajes. Foi daí que soube que o sujeito com a língua de fora era o Demônio – que estava, nada mais nada menos, esperando para agarrar os personagens que dançavam no centro, para levá-los para o inferno. E quem eram os personagens que dançavam no centro? Não podia dar outra: tratava-se dos espanhóis invasores! Afinal, quem mais merecia ir para o inferno na temática dos descendentes dos Filhos do Sol? E ao redor dos espanhóis havia muitos outros personagens que dançavam imitando grandes risadas, escarnecendo do pessoal do centro do grupo, que iria para o inferno! Claro que aqueles eram os representantes dos povos originários da América. Ah! Como a Arte pode dar formato às nossas aspirações e às nossas revoltas! Talvez muita gente que estivesse ali naquela praça olhasse aquele balé apenas pelo colorido e pelo seu impressionante Demônio de língua de fora – mas da sua forma os bailarinos estavam dançando toda a sua revolta contra o sistema que só faltara lhes roubar a alma, bem no nariz de todo o mundo, botando para fora toda a revolta que tinham, e os turistas desavisados fotografavam aquela revolta e a levavam para o mundo, sem se dar conta que ali estava uma guerra que terminaria no inferno! Bendita Arte, capaz de expressões impossíveis em outras àreas, tantas vezes! E essa gente, com toda a sua criatividade, foi chamada de “selvagem” pelo invasor europeus que veio para destruir o seu mundo!      



[1][1] APHD – Amiga dos Proprietários de Harley-Davidson (Nota da autora)
[2][2] http://www.cusco-peru.org/cusco-peru/alrededores-cusco-andahuaylillas.shtml, consultado em 20.06.2006. Também os agradecimentos à PHD Ani Vargas, de Lima, Peru, que contribuiu com essa pesquisa. 

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