samedi 14 avril 2012

Crônica da Urda - Flanando por Cusco com o Lobo Solitário



(Excertos do Livro "Viagem ao Umbigo do Mundo", publicado em 2006) 


Na tarde do outro dia é que senti, afinal, o peso da altitude naquela cidade fascinante. Aquele fora declarado um dia livre: estavam a chegar ao hotel harleyros de todos os lados da América – afinal, tínhamos ido até lá para o Segundo Encontro Intercontinental de Motociclismo! Aos poucos, cada vez mais se viam botas negras e camisetas e jaquetas das Harley-Davidson pelos corredores e salões do hotel, e as delegações que chegavam eram recebidas com grandes efusões de amizade pelos meus amigos, pois se tratavam de pessoas que eles conheciam de outras viagens, de outras aventuras – e estava chegando gente da Argentina, do Chile, do Equador, de Lima – até um rapaz todo vermelhão apareceu vindo desde os Estados Unidos! Ninguém fizera viagem curta, nem mesmo os limeños, mas o estadunidense é quem vinha de mais longe. Fiquei a pensar em como ele atravessara toda a América Central, a Colômbia, grande parte do Peru ... mas mesmo assim também pensei: teria ele votado em Bush? Como não falo inglês ficou tudo mais fácil, não tinha mesmo como fazer perguntas ao Vermelhão.
                                               Quem não conhecia ninguém novo ali era eu e o Lobo Solitário. O Lobo estava meio sem saber o que fazer, e então eu decidi:
                                               - Vem comigo, Lobo! Vamos conhecer Cusco                                                                    Sei que é muita pretensão achar que se possa conhecer Cusco num dia, mas fomos fazer o que dava. E com o Lobo saí passeando por todo aquele dia, fazendo bem um programa de turista, indo desde a Praça de Armas até o Templo do Sol, e desde as igrejas barrocas até a uma comida esmerada num restaurante pertinho da praça, ao meio dia. Vou me omitir de descrever os inúmeros detalhes maravilhosos de Cusco tanto porque é impossível contar tudo, quanto porque já fiz muitas descrições a respeito deles em outro livro meu, chamado “Entre condores e lhamas”[1][1]. Tenham certeza os leitores que nunca lá estiveram, no entanto, que aquele é um lugar único e imperdível – se alguém chegasse para mim agora e me dissesse: “Olha, está aqui uma passagem de graça para tu ires a Paris, com todas as mordomias, por um mês inteiro”, eu pensaria bem umas dez vezes se quereria mesmo ir de novo a Paris. Mas se alguém me oferecesse uma ida a Cusco já para o dia seguinte, fosse do jeito que fosse, com certeza eu iria correndo fazer as malas! Se você ainda não foi lá, espero que um dia possa ir, e tirar a limpo o que foi esta nossa América no passado!
                                                                                              Então, naquele dia, eu e o Lobo Solitário andamos tanto, mas tanto por Cusco, e aconteceram coisas tão insólitas, como uma família inteira dentro de um templo, vestida como os antigos Incas, com grande pompa e fausto, a tirar fotos com o Lobo (eles cobravam alguma coisa para tirar tais fotos, claro! Aquela é uma cidade turística, afinal!), que de tardinha estávamos mortos de cansados, com a altitude a nos mostrar direitinho quais eram nossos limites. Cheguei ao hotel estourada; sequer fui à abertura do Encontro de Motociclismo, que aconteceu naquela noite com uma recepção em Sachsayuhaman toda iluminada, com a presença, inclusive, do alcaide de Cusco. Deve ter sido coisa rápida, só fotos e discursos de boas vindas, pois logo as Harleys estavam de volta.

Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR


[1][1] Editora Hemisfério Sul, Blumenau/SC.

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