lundi 26 mars 2012

DOMINGO DE MARÇO

(Meditações sobre o cotidiano)

EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

PARA LÚCIA HELENA SÁ

“Do rio que tudo arrasta, se diz violento, mas não se diz violentas as margens que o oprimem”.

(Bertold Brecht)*

Apenas isso – nada napoleônico

domingo de março

microacontecimento

pássaros cantando naquela árvore (perto da janela) – sempre isso, e tão belo.

Tendo sorte ou não – dizia W. B, Yeats – o trabalho sempre deixa rastro.



Deus faz que me Esquece.

Depois Reaparece.



Já não preciso de bandeiras.

A vida – ela mesma, sempre – é a minha maior “bandeira”.

Não quero saber de engenhocas eletrônicas – apenas dessa existência.

Chegará um tempo em que o mundo todo terá se transformado em um homem de negócios?

Agora não importa.

A vida pode ser um processo de demolição.

É preciso saber driblar.

E – por que não? – amar.

(Uso o verbo como “arqueólogo” – que vai lá no fundo – para resgatar o verdadeiro sentido das palavras.)

Pai, mãe, filho, flor, mar, irmão, amigo, esperança – e paz.

(...) “Alguma (pouca) coisa que foi feita/ pode talvez merecer uma espécie/de não exatamente eternidade/mas mais do que o imediato esquecimento”.

(Paulo Henriques Britto, no livro de poemas “Formas do Nada”)



Apenas isso (e tanto): um domingo de março

                                          céu azul

                                          pão feito em casa

                                          um café quente

                                          e aquela árvore que continuará sempre ali.

Domingo de março...

*Mantenho a forma verbal (“se diz violentas) na tradução do verso de Brecht.)

(Brasília, março de 2012)

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