vendredi 9 mars 2012

Crônica da Urda

A CAMINHO DE CUSCO - PERU        

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(Excertos do livbros "Viagem ao Umbigo do Mundo", publicado em 2006)



                                    Um dia, num outro livro, escrevi assim:

                                   “Ah, Cusco, antiga capital do Império Inca, ah! Cusco, atual capital do Império Inca!”. Como falar de Cusco sem dizer tais coisas? Depois que se vai a Cusco não se pode mais acreditar no que dizem os livros escolares, que contam que o Império Inca foi destruído por Pizarro e etc. A cultura dos povos antigos da América está muito e muito viva, e os povos também o estão. Para termos uma idéia, basta fazermos a conta da quantidade de gente que ainda hoje, em pleno século XXI, ainda fala o quíchua, a antiga língua que falavam os antigos Incas, nas regiões andinas: cerca de 8.000.000 de pessoas, e a língua está em expansão![1][1] Penso que outro tanto de gente fala o Aymara, e só no antigo Vale Sagrado dos Incas, o Vale do rio Urubamba, há mais 38 línguas antigas sendo faladas. São línguas tão desconhecidas pelos invasores europeus que eles nunca conseguiram sequer grafar a contento os sons das palavras, e a própria língua quíchua também é grafada como quechua ou de outras formas, bem como Cusco é grafado como Cuzco, e até como Qosqo! Se bem que o Império Inca existiu por um período curto, cerca de 400 anos, representou ele um somatório de muitos milhares de anos de História Americana, no mínimo 12.000 anos, até que se provem datas mais distantes. Pensar em Cusco me põe o coração a bater, me deixa emocionada com a grandiosidade que pode ter a História.  

                                   Na vez anterior em que eu estivera em Cusco eu chegara de noite, de trem, e não pudera ver a região próxima – desta vez era de tarde, eu dormira muitas horas e estava descansada, e a temperatura estava amena ali no carro de apoio, e então pude curtir aquela aproximação do Umbigo do Mundo como ainda não o fizera!

                                   Eu hei de ter tempo, ainda, no decorrer da minha vida, para um dia pegar uma mochila, ir até aquela região próxima de Cusco, alugar um cantinho lá numa daquelas casinhas de adobe, e ficar por lá um mês, vivendo como aquela gente vive! Pois nessa região do entorno de Cusco se vive como se vivia, creio, há pelo menos uns 5.000 anos antes do presente, no tempo em que o ser humano daquelas terras já dominara a agricultura, a criação de gado e tantas outras coisas, e na Europa mal e mal estava a formar-se as primeiras aldeias nas penínsulas que mais tarde seriam Grécia e Roma. E um dia os europeus chegaram ali e disseram que ali era a Barbárie, e que aquele gente era selvagem, e em nome de Deus e do rei tomaram posse das terras e do poder, e destruíram tudo quanto puderam.

                                   Não puderam destruir a cultura, no entanto. Cultura é coisa que não se destrói. Numa outra vez em que estivera no Peru vira, numa aldeia próxima de Olamtaytambo, antigas casas Incas intocadas, feitas de pura pedra, pequenas e funcionais, com seus nichos na parede à guisa de armários e prateleiras, onde os descendentes dos Filhos do Sol viviam quase como se viveu lá atrás, um dia. A diferença visível é que nos nichos das paredes, onde havia utensílios com certeza também provenientes de uma cultura milenar, havia coisas muito atuais: relógios despertadores, rádios à pilha, etc. E era uma aldeia altamente freqüentada por turistas, principalmente europeus e israelenses, que, com certeza, semeavam por ali sementes de idéias e incendiavam as imaginações, mas o tempo passava e a velha cultura milenar continuava.

                                   Assim era por onde andávamos naquela tarde. A fertilidade muito verde daqueles páramos parecia de veludo, toda cheia de umidade, até com magro rio a escorrer no meio dela, rio que deveria ter sido profundo e caudaloso no tempo do Degelo, pouco antes. No meio da verdura, casinhas de adobe como devem ter sido as casas do passado abrigavam a população que era toda rural, e lá estavam as pessoas, principalmente as mulheres, em duas, em três, em pequenos grupos que vigiavam seus rebanhos de lhamas que pastavam nos pastos sem cercas. Perguntei-me: seriam terras comunais? Teriam sido os velhos costumes mais fortes que o tacão do europeu e aqueles pastos não teriam cercas por costumes imemoriais? Não sei, talvez fossem. Sei que no México, no século XXI, muitas terras ainda são comunais.

                                   Sei que era extremamente lindo ver aqueles rebanhos de lhamas nos pastos verdinhos, e suas donas sentadas próximas a elas, fiando a lã da última tosquia como suas antepassadas devem ter fiado por milhares de anos antes que o invasor espanhol por ali chegasse, e aquelas mulheres e aquela lã eram extremamente coloridas e emocionantes dentro de como que um passado revivido, e eu ficava muitíssimo emocionada a olhá-las, quieta ali dentro do Land-Rover, sonhando com o dia em que voltaria ali para viver entre elas por um tempo. É aquela uma região onde ainda não há luz elétrica, e uma noite dentro de uma daquelas casinhas de adobe, à luz de algum tipo de fogo, deve ressuscitar realmente os velhos fantasmas do passado e trazer à tona toda a força da cultura que os cristãos julgaram erradicada, um dia.

                                   Apaixonada por aquela paisagem de sonho, por aquele mergulho no passado, percorri aquelas últimas duas horas quase que em silêncio, apenas chamando a atenção do Lobo Solitário para isso ou para aquilo e usando de interjeições como a gente faz quando lida com a paixão!

                                                                              E na sombra do entardecer, chegamos a Cusco!





[2][1] Sobre o uso do quíchua (ou quechua) nos países andinos, ver mais em www.pucp.edu.pe/estudios/cursos/quechua/La%20gente.doc , consultado em 17.06.2006. (Nota da autora)



                                                            Urda Alice Klueger

    Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR





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