samedi 4 février 2012

VARAL DE ESCRITORES E POETAS

Por Luiz Carlos Amorim – Escritor - http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br/
Quando recebi o convite da escritora e amiga Jacqueline Aisenman, catarinense de Laguna radicada em Genebra, para fazer o prefácio da segunda antologia Varal do Brasil, fiquei preocupado com a responsabilidade de tal tarefa. Mas em recebendo os originais que compõe a nova antologia, vi que meus receios eram infundados. A seleção de textos dos escritores que estão presentes em Varal da Poesia II são de tão boa qualidade, que me sinto muito à vontade para falar deles.

São poemas, crônicas, contos, alguns textos até mesclando um gênero com outro, abordando os mais variados temas: família, saudade, solidão, natureza, cidades, lugares, viagens, mulheres, o ato de escrever, de poetar, até o sexo está presente nesta obra. Mas adivinhem o assunto abordado por maior número de escritores e poetas?

Sim, claro, o amor. Como não poderia deixar de ser. O amor fraterno, o amor filial, o amor paterno, o amor a Deus, o amor entre duas pessoas. As diversas formas de amor nas diversas formas de sentí-lo, de escreve-lo, de registrá-lo.

Entre tantas peças literárias de tão boa qualidade, algumas se destacaram, me tocaram um pouco mais, como “O Anúncio”, de Izabelle Valladares. Fico com uma certa inveja de não ter escrito um texto como esse. “O Grito”, de Ironi Lírio dá voz a um pássaro preso, o poema que todos devemos ler. “O Menino do Cachecol Vermelho” é a história de uma criança vítima da decomposição da família que o consumo e o tráfico de drogas provoca. Ele só tem o cachecol que significa a esperança de reencontrar a família. “Quem és tu, Poeta”, de Valdeck Almeida de Jesus, poema onde o autor pergunta e responde o que é ou quem é o poeta. “Sem Título”, de Flávia Menegaz, começa com o verso “Tire suas expectativas das minhas palavras pois já sou quase outono”. É preciso dizer mais? É preciso ler o poema inteiro.

“Pintura Ingênua”, de Jacqueline Aisenman, é um poema em prosa para um pai. Que sensibilidade, que sentimento aguçado, quanta emoção para falar de seu pai. Já li muita coisa de Jacqueline e sei que ela é ótima cronista, ótima contista, ótima poetisa. Mas o coração e a alma dela estão neste poema, como não aprecia-lo? “Meu pai via com os olhos e falava tão belo palavras que não buscava, elas vinham de dentro dele, jorravam felizes de o ter, e sua voz tão bonita, como aquele que as diz... elas o tinham escolhido as palavras que vinham dele.

E estas mesmas palavras escorriam pelas mãos e se transformavam em letras que podiam falar de bons sentimentos ou de destruição.Ele não escolhia. Elas escolhiam por ele a hora

de ser o que queriam ser.

Meu pai ria pouco, mas quando ria, ria feliz e ria alto e até gargalhava. Podia rir dos gibis, das piadas, de estar feliz, do alheio, ele ria. Ria muito em momentos raros.”

E muito mais daquele pai revela o poema em prosa de Jaqueline. Diferente do meu texto, no qual falo de um pai diferente do dela, infelizmente: “É dolorido não poder lembrar um carinho, um abraço, um sorriso especialmente dado pra mim. Como já disse, os tempos eram outros, a maneira de demonstrar afeição talvez fosse diferente, mas não poderia ser tão diferente a ponto de não chegarmos a reconhecê-la. Será que havia medo em demonstrar sentimentos?

É possível que eu esteja sendo egoísta, mas para que não se repita mais o meu erro, conclamo todos os filhos – e todos nós somos – a dar um pouco mais de atenção e carinho a seus pais, mesmo que eles relutem em receber. E a todos os pais, também, a perceber o carinho vindo dos filhos e, principalmente, conclamo-os a retribuir, por mais sutil que isso tenha que ser.

Acho que gostaria de ter um dia, apenas mais um dia para mim e meu pai, para que pudéssemos preencher esse vazio, essa falta de alguma coisa que poderia ter sido, mas não foi, poderia ter existido, mas não existiu, poderia ter acontecido, mas não aconteceu. Essa sensação de amor contido, desperdiçado, perdido.Sinto saudade de ter saudade de meu pai."

Não é uma diferença bastante grande? Mas a vida é assim mesmo e a literatura imita a vida.

A verdade é que este livro reúne pedaços de vida de escritores talentosos que transformam a ficção em vida e transformam a vida em literatura, perpetuando nosso tempo e nosso espaço.

Vale a pena conhecer a lavra destes escritores brasileiros e portugueses que se reúnem em Varal do Brasil II, pois essa é a nova safra de escritores do nosso tempo.

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