lundi 6 février 2012

Sobre cinema e censura nas redes sociais paraenses

© Carpinteiro



O debate sobre a internet, as redes sociais e as novas formas de organização das tribos do cyberespaço, que tanto provocam reflexões de filósofos e sociólogos mundo à fora, está na ordem do dia, e, consequentemente, exige das pessoas medianamente inteligentes que tomem uma posição, ainda que virtual.

É com esta expressão que esclareço e justifica à guisa de introdução algumas das observações que farei abaixo para denunciar a forma como fui expulso de um grupo no qual fui colocado sem sequer ter sido perguntado (Cinema Pará - Facebook).

Como criador e como realizador que tem compromisso com a Amazônia, com o meu tempo, com a minha geração e mesmo com as novas gerações, não posso aceitar a este ato fascista. Faço cinema assim como outros que – como dizia o poeta João do Vale – MUITA GENTE DESCONHECE, muita gente desconhece.

As regras são claras nas redes. Você escolhe amigos e é por estes escolhidos. Você cria grupos ou aceita destes participar. Você curte e compartilha. Mas, se você desafina o coro dos contentes, então você passa a ser vigiado, com o preconceito peculiar de quem não tem paciência para observações outras que não aquelas às quais o próprio conforto se enquadrou de emoldurar.

Entretanto, como já não tenho idade para determinadas coisas e minha cabeça é mais analógica do que digital, sempre que me deparo com uma informação, julgo-me no direito de indagá-la, procurar saber de suas origens e fontes e provocar se os seus objetivos são de fato aqueles aos quais ela supostamente está a se propor.

É que, com o tempo, criei anticorpos para estes tipos de vírus que se apropriam dos pensamentos e ações dos grupos sociais coletivos em benefícios individuais. Logo que percebo esta ação danosa, eu os ataco, a estes vírus, ora com perguntas e mesmo com ironias. Apesar de artisticamente “curtir” a tragédia, prefiro os sátiros aos dramáticos (a tragédia é dionisíaca, o drama, apolíneo, enfim).

A uma determinada postagem neste grupo fascista a que me referi, eu manifestei a minha posição, assim de forma aberta e da mesma forma recebi respostas, pelo que eu e meu interlocutor ficamos a revelar nossas concepções existenciais sobre o fazer audiovisual paraense, ainda que de forma superficial, sem chances para aprofundarmos nossos conceitos e enumerarmos e identificarmos as relações críticas entre os conteúdos de nossos pensamentos.

Pois bem: quem quiser que visite a página para observar que não chegamos nem a trinta linhas “faceanas” para que o meu interlocutor tomasse uma atitude de menina mimada pelo papaizinho e terminasse o nosso pressuposto diálogo com um “passe bem”, seguindo-se de minha exclusão do grupo, da mesma forma que me convidara, sem me consultar, assumindo assim uma postura autoritária e fascista, demasiada perigosa, justo num momento político em que diversas frentes globais estão às voltas com a discussão sobre ação e censura em redes sociais, pirataria, direitos de autor e, mais recentemente, com a prisão do “proprietário” do megaupload.

Fatos, aliás que até podem ter passado despercebidos dos diálogos dos realizadores e produtores de conteúdos digitais aqui no estado do Pará e mesmo esquecidos (ou ignorados?) das salas de aula nas quais se processam as estruturas de conhecimentos (“enlatados”) que são, na maioria das vezes, empurrados goela abaixo via disciplinas acadêmicas supostamente transversais, entretanto, direta ou indiretamente os fatos haverão de nos afetar, na medida em que, numa escalada mais ou menos ligeira, deverão cair os sites de uploads, rapidshared, torrentes, etc.

Estes fatos talvez nada tenham haver conosco, paraenses, nesta imensa floresta sagrada que é a nossa querida Amazônia, a nossa casa, entretanto, as redes sociais e as diversas tentativas de censura às mesmas, em Cuba ou nos Estados Unidos, também nos afetam, ainda que os excluídos sejam pessoas como eu que sempre desafinam o coro dos contentes. E, do mesmo modo, afetam-nos – ou deveriam afetar-nos as inúmeras tentativas de enquadramentos e regras que se vão impondo aos grupos que se organizam ora de forma anárquica e caótica ora de forma absolutamente organizativa e proposital.

Na linha do debate que eu havia tentado produzir naquele grupo fascista, seguindo-se a postagem publicitária de um filme americano, eu objetivamente tencionava formular a crítica tanto às projeções quanto as repercussões (sempre incisivas via médias paraenses que esquecem do cinema amazônida exatamente por terem vergonha do que fazemos) são revelações de um sentimento autocolonialista que historicamente nos tem subjugado a um estado permanente de dominação política, econômica e cultural.

Minha crítica é a esta dominação destes doutos estrangeiros que desconhecem este espaço e propositalmente destroem o que produzimos, seja por não nos respeitarem, seja por não estarem interessados na realidade inexorável de que temos - sim - realizadores de estirpe, além destes cuja esta mesma mídia e academia toleram, pois que que apenas reproduzem regras e conceitos e padrões enlatados e que por isso mesmo tem vez nos festivais e mostras “curados” na região.

Minha crítica é exatamente a estas pessoas que tem espaço nas redes e nos média, mas que nada mais fazem do que repetir estes dogmas e referenciá-los como se - ou ignorassem ou tivessem medo de assumir que existe - sim - nesta terra chamada Amazônia criadores que estão a refletir uma estética e a praticá-la no seu cotidiano, afrontando estes padrões policialescos e fascistas.

Minha crítica é a estes que se dizem críticos, mas que são resenhistas, as estes que se dizem críticos, mas que são usurpadores dos fazeres populares, a estes que se dizem críticos, mas que não fazem a crítica do cinema que se faz na Amazônia.



Rio Branco, Acre, 1 de Fevereiro de 2012

© Francisco Weyl, Carpinteiro de Poesia e de Cinema

(Enviado por Clevane Pessoa Lopes)

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