mercredi 15 février 2012

Quanto Vale Um Sonho

Autor: Galdy Galdino



              Uma amiga minha disse que eu devia escrever para a revista... contando a minha história, eu, no entanto, disse-lhe que não tinha nada para contar, ela, porém, insistiu tanto que eu resolvi fazer um pequeno relato.
             Tudo começou quando lancei um livro...

Na verdade começa bem antes, mas a ideia de expor em revista a minha peleja para fazer cultura no rol literário partiu de Janice (minha colega de trabalho) depois do meu livro.

Pois é, realizei um sonho meu de publicar um livro; livro esse que só veio à tona seis anos depois de eu escrever a minha primeira poesia que, na época, publiquei no periódico local: Jornal Folhão da Bahia. De lá pra cá foram mais de quatrocentas poesias e outros tantos contos esguichando pela minha veia literária e ficando engavetados até, enfim, eu conseguir, antes de morrer, tornar algo imortal que é o livro.

A ideia de revelar a minha ideia (desculpem o trocadilho) para todo mundo em forma de versos, expondo meus pensamentos, emoções e fatos, começou no início de 2003 aos vinte anos quando findava o ano letivo e eu concluía o ensino médio (Antes que estranhem: “o fim do ano letivo no começo do ano?” deixem-me explicar: é que devido à greve dos professores – o que é comum na rede pública de ensino – o ano letivo adentrou o verão e foi até um pouco antes do carnaval).

Então, em outubro de 2004, sem emprego e com um pouco de dinheiro na poupança (cerca de 200 reais – economia de um bico de vigilante e alguns plantões como bombeiro voluntário. Sim, era voluntário, mas ganhava uma merrequinha) e um grande sonho a realizar, pus na sacola tira-colo meus quatro caderninhos de poesias e outro de contos junto a alguns livros de literatura, fiz minha mala e rumei para a capital com a esperança de publicar meu livro (não sei se foi loucura ou ingenuidade em achar que na capital tudo se resolveria). Deixei pra trás não só uma cidade que não sabia o filho que tinha, mas principalmente a minha família que sabia que eu tinha que lutar (mas só tomaram conhecimento da minha partida uma hora antes de eu ir para a rodoviária, pois eu não queria que ninguém tentasse demover o meu propósito). Minha mãe – como é de se esperar das mães – se debulhou em lágrimas durante a despedida e me fez copiosas recomendações acerca dos perigos da cidade grande.

Pela janela do ônibus eu via Alagoinhas ficando para trás, ficando pequena até sumir, e meus olhos contemplavam a paisagem lá fora (é interessante como a visão através da janela de um veículo em movimento é tão fascinante). No embalo da viagem eu viajava (desculpem novamente o trocadilho) imaginando uma nova vida numa metrópole, quem sabe até um grande amor, assim eu esqueceria a garota que partiu o meu coração...

Duas horas depois cheguei a Salvador no meio da tarde de uma quinta-feira e perambulei com uma mala e uma sacola pesando em meus ombros, com o sol lambendo o meu rosto, e um pouco desnorteado (não tinha feito exatamente uma programação) depois de obter informações na rodoviária (mapas não me guiam muito bem).

 Para não perder muito tempo, depois de tomar um ônibus e percorrer pelas ruas desconhecidas correndo o risco de ser assaltado (se bem que pelos meus trajes – bermuda surrada, camisa não tão nova assim e tênis gastos – não me julgariam ter dinheiro para roubar), paguei uma corrida de táxi direto para a Secretaria de Cultura e Turismo da Bahia. Lá chegando fui bem recebido quando me apresentei como poeta e fiquei sabendo que primeiro eu teria que me instalar em algum lugar para depois mandar um ofício junto com uma amostra do meu trabalho ao secretário de cultura pedindo apoio e patrocínio (mas não era certeza de que eu fosse obter).

Do Caminho das Árvores eu fui para o Pelourinho (pois eu achava que a Casa do Poeta Brasileiro em Salvador ficava lá) e aluguei um albergue para passar a noite.

A noite no Pelourinho é bastante movimentada, porém, sem dinheiro para gastar, a única coisa que fiz (depois de ligar para casa de um orelhão para dizer que estava tudo bem comigo) foi um pequeno lanche depois de circular pelas ladeiras do Pelô e me deparar com uma prostituta na praça se oferecendo para um programa.

Como disse Carlos Drummond de Andrade: “a noite dissolve os homens”. 

Travei uma conversa com o meu vizinho de albergue (ele tinha vindo de Alagoas e ia tentar a vida aqui na Bahia e tinha chegado a Salvador um dia antes de mim), pois não tinha mais com quem conversar – o dono do albergue era um argentino e a conversa não fluiria muito bem, já o seu ajudante era um negrinho maconheiro (digo isto, pois eu o vi apagando um cigarro de maconha e colocando no armário do banheiro) e não teria conversa nenhuma.

O meu vizinho era um tanto afeminado e eu me acautelei – não que eu tenha preconceito, mas é que eu não queria que ele fantasiasse nada –, mas, diferente da imagem que temos dos gays, aquele alagoano foi um bom camarada e disse que eu era um louco em vir para uma cidade grande com pouco dinheiro e sem conhecer ninguém, mas que admirava a minha força de vontade e, qualquer coisa, pelo menos eu podia voltar para a minha cidade que é perto, enquanto ele não podia voltar para o seu estado assim tão fácil (pelo papo dele acho que o pai o expulsou de casa quando descobriu que “espécie” era o filho – algumas pessoas são radicais).

“O travesseiro é um bom conselheiro”. Não sei se alguém já disse isso, mas o fato é que é verdade. Enquanto eu estava, a 107 km de minha cidade natal, numa cama insensível às minhas emoções, eu refleti antes de pegar no sono, vencido pelo cansaço.

Pela manhã, depois do café da manhã (cortesia da casa), eu estava decidido a voltar para a minha cidade e procurar a Casa do Poeta de Alagoinhas (que até então era desconhecida para mim), pois continuar em Salvador com o pouco dinheiro que eu tinha (em menos de 24 horas gastei quase 60 reais) ia ser difícil até arrumar um emprego. Então desci pelo Elevador Lacerda e tomei um ônibus para a rodoviária.

Como Santiago de O Alquimista, de Paulo Coelho, eu precisei ir longe para perceber que o que eu procurava estava sempre perto de mim.

Só em julho de 2005 eu consegui me associar à Casa do Poeta de Alagoinhas (pois esta estava fechada em razão do falecimento do presidente da casa) e em novembro fui eleito bibliotecário. Também foi em julho que, no meu quarto, eu me autobatizei (sem nenhum ritual) com o nome artístico Galdy Galdino, pois Romildo não cairia muito bem.

No entanto eu vi que não bastava ser membro de uma casa de cultura e participar de alguns saraus, era preciso também ter dinheiro, pois a Secretaria de Cultura não patrocina casos isolados (e em se tratando de uma cidade pequena onde a cultura quase não tem espaço, e eu sendo praticamente anônimo, o negócio mesmo era pôr a mão no bolso, se eu quisesse publicar o meu livro). A Secretaria de Cultura fez apenas uma coletânea dos poetas da cidade (onde tive uma poesia publicada), apesar de o secretário de cultura ter prometido uma coletânea por ano (se bem que já sabemos que em certas promessas não devemos acreditar).

Quando consegui um emprego de carteira assinada em março 2006 em um hipermercado comecei a investir quase um terço do meu salário na poupança (pelo menos nos primeiros meses, pois não podia deixar de fazer alguns cursos), mas o salário de um comerciário não é lá essas coisas e o rendimento era muito pouco (não consegui juntar nem dois mil reais em quase dois anos).

Em novembro de 2006 fui contemplado com o 3° lugar no XXII Concurso de Poesias Biblioteca Municipal João XXIII de Mogi Guaçu-SP (não teve premiação em dinheiro, mas o importante foi eu me sentir valorizado como poeta e ter um recheio a mais no meu currículo literário).

Como demoraria um pouco para obter o montante, resolvi participar de antologias – era mais barato, mas em contrapartida era muito caro para a quantidade de páginas que eu estava pagando: quatro páginas = 300 reais, mas valeria para divulgação e eu tinha direito a 20 exemplares – e publiquei alguns trabalhos em duas antologias (uma em 2007 e a outra em 2008) pela Scortecci Editora, uma editora de São Paulo que um poeta da minha cidade me indicou por ser uma editora que “possibilita a realização do sonho de publicar um livro”.

Em 2009 tomei uma decisão: se eu queria mesmo publicar um livro eu teria que o fazer de qualquer jeito, então tomei um empréstimo consignado no banco, no valor de 2.700 reais, e dividi em 27 parcelas (só de juros pagarei no fim das contas aproximadamente 1.223 reais), mas valeu à pena, pois só assim, em julho de 2009, lancei o meu primeiro livro de poesia Refúgio d’Alma, pela Scortecci Editora (só não sei por que não pensei nisso antes).

O livro em si (250 exemplares) custou-me um valor de 2.902 reais (tirando outras despesas como frete dos livros prontos e coquetel de lançamento), mas a satisfação de ter um sonho realizado não tem preço.

Algumas pessoas dizem que eu sou um vencedor (e eu não discordo disso), mas tenho ainda várias batalhas pela frente.


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