mercredi 22 février 2012

Melhor atriz em Berlim é negra e foi menina de rua

Por Rui Martins, de Berlim

O júri do Festival de Cinema de Berlim premiou como melhor atriz uma menina rejeitada pela mãe, mais tarde pela avó, que viveu na rua antes de ser recuperada por uma organização humanitária, quando foi alfaberizada.
A atriz negra Rachel Mwanza é originária do Congo, RDC, e faz o papel de uma menina soldado, sequestrada por rebeldes e obrigada a lutar com eles depois de um aprendizado no manejo de metralhadora. Seus dois primeiros assassinatos, no filme, foram seus próprios pais.
Em pouco tempo, ela é considerada feiticeira e assim sobrevive no grupo até fugir com outro soldado, também sequestrado, que é morto ao ser reencontrado pelos rebeldes. Há um toque esperança, pois a « feiticeira » tem um filho, uma família de acolha e a vida poderá recomeçar em outras bases.
Rachel, conta o realizador Kim Nguyen, do filme Rebelde, teve uma vida tão dificil quase como a contada no filme. Ela cresceu na rua e hoje ela frequenta a escola e diversas pessoas a ajudam. O paralelo entre a história contada no filme e a vida de Rachel é também interessante. Com o dinheiro do filme procuramos também ajudar Rachel mas não fácil visto seu contexto familiar e ainda hoje ela precisa reunir o máximo de força e tenacidade para adquir independência.
É a própria Rachel quem conta – « quando ainda pequena, minha mãe mudou-se para outra cidade, meu pai foi para outro lugar e eu me vi sozinha. Foi minha avó quem me cuidou e éramos seis, duas meninas e quatro meninos. Mas minha avó ficou depois desempregada e para sobreviver ela vendia pequenas coisas na rua e fazia assim um pequeno comércio para poder viver.
Foi uma época muito difícil para nós, até que chegou o momento em que não podia mais nos sustentar e um dia ela disse a um de meus irmãos que devíamos partir de casa. Os grandes precisam partir e eu guardo só os pequenos, disse minha avó. Vivíamos num lugar precário, minha avó não suportava mais a situação e eu parti.
Tive, então de arranjar o que comer na rua e sobreviver sozinha. Comecei a vender nozes, avelão e frutas secas e com isso tinha um pouquinho dinheiro. Meus pais também faziam pequenos empregos mas vivíamos na rua. Enfim, consegui um alojamento, mas as condições eram também difíceis e hostis.
Em seguida, fui viver na casa de uma amiga, ela tinha mais idade que eu e eu a ajudava nas coisas de casa. Um de meus irmãos se chama Che Guevara. Ele conhecia um branco chamado Macaré, que fazia castings para filmes e foi assim que fui selecionada para um documentário.
Depois de participar de um documentário, ganhei 600 dólares e dei para minha avó para poder ir à escola, mas o dinheiro previsto para as despesas com a escola não foi assim utilizado e minha avó guardou para ela. Então decidi retornar ao centro de acolha onde estivera e foi assim que reapareceu o europeu Macaré, que me falou haver cenas a refazer no documentário.
Um dia ao retornar à minha família, meus irmãos me disseram, soubemos que você trabalhou num filme e seria bom que voce prossiga nesse caminho. Foi uma espécie de milagre, se assim posso dizer, ter trabalhado no primeiro filme e hje sei ler, o trabalho neste filme Rebelde foi uma grande para mim e quero agradecer a todos aqueles que me ajudaram a participar desse projeto, sao eles hoje minha família ».
Rui Martins, de Berlim, convidado pelo Festival de Cinema de Berlim

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