mercredi 22 février 2012

Crônica da Urda: SOFRENDO OS DRAMAS DA ALTITUDE

  (Excertos do livro "Viagem ao Umbigo do Mundo",publicado em 2006)

        

                                                                  A ordem, para a manhã seguinte, era a de usar toda a roupa  quente – Arequipa estava a mais de 2.300 metros de altitude, mas dali subiríamos abruptamente para altitudes bem maiores.

                                                           Cheia de roupas de lã e usando os apetrechos de couro da Dona Rose, partimos para uma imediata subida tão logo saímos do meio dos três vulcões daquela cidade tão simpática. Eu tomara uma decisão, naquele dia: iria fazer como os PHD, resistir à altitude, continuar a viagem de moto por mais alto que estivéssemos, não me deixar ficar como morta no carro de apoio como acontecia a cada vez que subíamos muito. Jaka já estava mascando folhas de coca, e eu tratei de passar a mascá-las também, com a técnica que havia aprendido anos antes, quando fora a Chacaltaia, na Bolívia, e quase não suportara os 5.300 m de altitude de lá. Tinha refletido sobre o assunto, e como via os motociclistas resistirem às altitudes maiores sem perderem o pique, como eu perdia, estava a achar que o ar fresco, a obrigatoriedade de ficar respirando o vento deveria lhes dar quantidades maiores de oxigênio, o que lhes permitia a resistência. Se eles podiam, eu também poderia. E fui direto para a garupa do seu Chico.

                                               Tão logo passamos a subir o frio se fez sentir, e toda aquela roupa de couro e de lã parecia pouca para o clima. Eu mascava as folhas de coca e respirava profundamente, decidida a ficar todo o tempo em cima daquela moto, mas era como se as coisas fossem se enevoando, e a todo o momento tinha que piscar forte para distinguir bem a paisagem. Naquela altitude o consumo de gasolina das motos carburadas aumentava muito, e penso que antes de 200 km de distância, quando atingimos o povoado de Imata, que estava a 4.172 metros de altitude (e, portanto, a uma altitude superior a La Paz), já estava sendo necessário o abastecimento.

                                               Aquele era um lugar perdido quase que no meio das nuvens, pequeno e pobre, onde sequer havia posto de gasolina, e quem vendia a nafta eram pessoas comuns, que escreviam nas paredes das casas que tinham gasolina para vender, e a guardavam em galões, nas suas salas, nos mesmos lugares onde havia crianças brincando, etc. Quando alguém comprava gasolina, a dona da casa trazia-a num balde, e a derramava no tanque do veículo através de um funil. Os motociclistas sabiam que se faziam misturas na gasolina, por ali, e quando paramos numa dessas casinhas para fazer o abastecimento, seu Chico me pediu para usar meu pobre espanhol e dizer para a mulher que não importava quanto custasse a gasolina, mas que ele a queria sem mistura. Lembro que desci da moto como que dentro de uma névoa, e lembro-me como  me via como um filme em câmara lenta dizendo para a mulher:

                                   - Senõra, sem mezcla! Sem mezcla!

                                   Atravessamos aquele povoado com as motos abastecidas e seguimos adiante. A estrada era boa, asfaltada, e eu estava quase dormindo em cima da moto. Nossa formação continuava, mas lá pelas tantas vi seu Chico observando com muito cuidado a região onde passávamos, e em determinado momento ele saiu da formação militar e parou sua moto. No meio do nada, havia minúscula casinha de adobe, e foi para lá que o seu Chico se dirigiu, levando fotos e outros brindes, como camisetas, etc. Quase dormindo, eu fiquei aprumada na moto parada, até que o seu Chico voltou e me contou: um dia estava ali naquele lugar, quando escurecera.

                                   Vale aqui abrir um parágrafo para contar o que acontecera ao seu Chico e seus companheiros naquela ocasião.

                                   Alguém lhes dera informações erradas em Arequipa, dizendo que atingiriam Juliaca em duas horas, e, desconhecendo a estrada, eles tinham seguido viagem já no final da tarde. A noite os pegou naquele ponto no meio do nada, numa temperatura de seis graus negativos e naquela altitude superior a 4.000 metros. Eles eram em quatro: os PHD Chico, Dov, Della e Evangelista, e há que se dizer que o PHD Della (Della Giustina) estava com uma forte insuficiência respiratória, enquanto que o PHD Dov estava com uma costela partida – e parece que todos estavam destinados à morte pelo frio, ali naquela altitude congelante. Por sorte encontraram a polícia peruana, que os ajudou a chegar àquele lugar, pequenina casa de adobe que funcionava como uma casa de refeições, e era conhecida como uma casa de desayuno[1][1], se bem que servisse refeições por todo o dia e também à noite. Conta o PHD Chico que a comida do dasayuno, limitava-se a chá de coca[2][2] e um prato de água fervida com batatas e milho, à guisa de sopa de galinha.

                                   Salvos pelo gongo de uma morte quase certa, nossos heróis conseguiram enfiar as motos na casinha de adobe, na metade da casinha que lhes coube, e que era onde funcionava o desayuno, e ficaram a tomar chá de coca e a tremer de frio, até ganharem quatro pelegos de lhama, que estenderam no chão para dormir em cima. Vieram também umas poucas mantas de pelo de lhama, mas tudo era insuficiente para aquele frio de menos seis graus Centígrados – e seu Chico conta que eles se amontoaram como uma ninhada de cachorrinhos, uns encostados nos outros, para tentarem se aquecer. Havia uma vela acesa, e o Dov era quem estava mais perto dela, mas ele estava tão sem forças, pela costela quebrada e pela exaustão do frio e da altitude, que não conseguia soprar o suficiente para apagá-la. Acho importante contar tal coisa para que os leitores saibam o quanto pode a altitude nos fazer mal         

                                   Sei que eles acabaram apagando a vela e, amontoados como cachorros, tentaram dormir. Há uma pitada de engraçado naquela noite, que foi quando, de madrugada, todos eles se acordaram com as bexigas cheias, depois de todo o chá de coca tomado, e descobriram que estavam trancados a cadeado naquele minúsculo espaço. Precisavam fazer xixi, no entanto. A única solução à vista era uma banheirinha de bebê, muito pequena, que conheci através de fotos, e que dormia ali por perto. Usaram-na, e tentaram atravessar o resto da noite fria amontoados nos pelegos.

                                   Assim que clareou, o dono do desayuno veio abrir o cadeado, e então o PHD Evangelista apressou-se a despejar lá fora o conteúdo da banheirinha de plástico. Instantes depois, as duas mocinhas, filhas da casa, apareceram naquele aposento atrás da banheirinha, que era onde costumavam fazer sua higiene matinal. E quietos e calados os PHD ficarem observando as duas mocinhas despejarem uma caneca d’água na banheirinha, e naquela água lavarem seus rostos, sem nem desconfiarem do acontecido durante a noite. Foi entre sério e surpreso que o seu Chico contou-me essa história – penso que eles estavam agradecidos, sobretudo, por não terem morrido. Devem ter tomado mais chá de coca e mais a tal sopa que ali se servia, antes de tentarem voltar à estrada, porque não foi fácil: o PHD Della estava absolutamente sem pernas. Tiveram que carregá-lo e à sua moto, e no asfalto botaram a moto em pé e o montaram nela, e saíram viajando num trio, com dois deles segurando entre si o PHD Della, totalmente baleado pela altitude. Sei que sobreviveram para contar. Na minha primeira subida aos Andes, em 1993, houve momentos em que tive sérias dúvidas se sobreviveria para contar ou não, e acabei escrevendo um livro sobre o assunto. Não se brinca com a altitude.                                                                    

                                   Desde então, a cada vez que passava por lá, seu Chico fazia uma pequena visita àquela gente e lhe levava algumas coisas. Achei bonita aquela atitude, mas estava quase dormindo e nem conseguia mais expressar o que sentia. Voltei a subir na moto e tentar respirar fundo, mas já não tinha mais forças.  Sei que dormi pois acordei – e agora eu pergunto: como é que um caroneiro descobre que dormiu sobre uma moto? Descobre porque seu  capacete bate no capacete do piloto da moto, e ele é acordado por aquele POC que acontece! 





[3][2] Em algum momento acho que devo fazer um esclarecimento, já que o assunto costuma confundir muitas pessoas: a coca (mascada ou em chá) não é cocaína, assim como a uva não é vinho. (Nota da autora)





                        Urda Alice Klueger

    Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR



[1][1] Desayuno = desjejum, ou café-da-manhã. (Nota da autora)


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